Por mais que a vaca tussa. Por mais que os editoriais identifiquem novos santos para aumentar os likes — ontem era Mbappé, hoje é Messi, amanhã a pompa será direcionada para outro eleito da conveniência. Por mais que a FIFA continue cultivando o mais eloquente dos silêncios, que os argentinos façam carinhas de anjos e que muitas pessoas façam alusão à “unidade” de uma América que nunca foi só Latina,  esta Copa já está manchada para sempre como um torneio de cartas marcadas. Assim como a Copa de 1978, esta nova mancha não se apagará com discursos e nem com aplausos.

Apenas uma vitória da Espanha sobre a Argentina será capaz de devolver algum brilho ao jogo jogado dentro das quatro linhas, onde a bola deveria ser a única juíza. Fora de campo, a Espanha de Pedro Sanchez,  Lamine Yamal e de tantos “compañeros y compañeras” já dá de goleada, pois são símbolos de causas que ultrapassam o gramado, incluindo a solidariedade ao povo palestino e a outros povos submetidos à violência e à opressão dos nossos tempos. Afinal, o futebol também carrega umas bandeiras que a FIFA não consegue esconder.

A partir de segunda-feira, terminado o torneio, a desmemória midiática fará seu trabalho de tentar apagar algumas pegadas. Poucos recordarão a desclassificação de Cabo Verde, do Egito ou da Noruega. As jogadas maldosas e as falhas dos VAR acabarão soterradas sob montanhas de estatísticas e dos “melhores momentos da Copa”. Talvez algum comentarista insista que a solada de Messi no jogador da Argélia foi apenas “uma coisa do jogo” e pode ser que os jogadores argentinos, que ganham milhões de euros na Inglaterra, peçam desculpas pelas patadas que deram nos seus “colegas” sem bola. O bom é que sempre teremos algumas dessas tristes imagens armazenadas nos celulares.

Vivemos um tempo em que a distopia se disfarçou de normalidade. A irracionalidade encontrou multidões dispostas a chamá-la de bom senso. Um novo fanatismo, impaciente com regras e desconfiado dos fatos, celebra as vitórias antes de perguntar como elas foram conquistadas. Não está sendo fácil substituir argumentos por emojis, gritos de torcidas organizadas e pensamento por algoritmos que sequer conhecemos. Parece que o mundo descobriu uma estranha realidade que ocupou o lugar do bom senso.

O mais triste é que essa pandemia saiu dos estádios e entrou nos governos e parlamentos com a mesma desenvoltura. No Brasil, já vestiu as cores de Bolsonaro. Na Argentina, ainda encontra ecos no desgoverno de Milei e nos Estados Unidos permanece com as maracutaias e ameaças de Donald Trump ao mundo. Mudam as camisas, mudam os idiomas, mas a tática permanece a mesma: primeiro escolhe-se um alvo, para depois encontrar uma narrativa que mude a leitura que se fazia da realidade até bem pouco tempo.

Mas, voltando ao assunto: por maiores que sejam feitos esforços e que a Espanha vença a final, esta Copa ficará manchada para sempre. O que se poderia esperar de uma organização atolada em escândalos de corrupção?

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