Professor de antropologia da UFRJ, é membro da Academia Brasileira de Ciências
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Jogadores de futebol aposentados que contam histórias sobre como pularam o muro da concentração para ir a festas, sobre bebidas contrabandeadas para os quartos dos hotéis e sobre como passaram toda a madrugada antes de jogos em bordéis são comuns. Na internet, essas histórias, que por alguma razão que desconheço passaram a ser chamadas de resenhas, fazem sucesso. Se essas são histórias comuns da geração que jogou nos anos 1990, a que joga hoje e se aposentará nos próximos anos tem outro tipo de causo para contar. São os jogadores missionários.
Há pouco mais de cinco anos, Alisson Becker, goleiro titular da seleção brasileira nesta Copa, foi irmão de fé e participou do batismo do atacante Roberto Firmino, que na época jogava no Liverpool, da Inglaterra. O ritual, feito na própria piscina da casa do atacante, foi comandado pelo popular cantor gospel Isaías Saad.
Pesquisadores como a antropóloga Carmen Rial têm se dedicado a descrever esse curioso fenômeno. Entre a Copa de 1994 e esta edição do Mundial, jogadores brasileiros de alto nível se tornaram responsáveis por uma espécie de missão reversa, levando para seus clubes na Europa o evangelicalismo brasileiro.
Já há tanta densidade de casos como esse de Alisson que, quando enfileirados, dão a dimensão dos fatos. Na campanha do tetra, em 1994, o lateral-direito Jorginho foi um jogador-chave dessa linhagem evangélica. Enquanto atuava nos clubes alemães Bayer Leverkusen e Bayern de Munique, Jorginho criou uma igreja no país europeu, atraiu outros jogadores e foi um dos principais responsáveis pela popularização do pentecostalismo na Bundesliga, o campeonato alemão.
Na Copa de 2002, ainda na reserva, Kaká, conhecido no universo evangélico por seu contato inicial com a Igreja Renascer em Cristo, estampou uma das imagens mais icônicas desta nova fase do futebol brasileiro. Com a taça do Mundial nas mãos e a bandeira amarrada no pescoço, o meia ostentava uma camiseta com a frase "I belong to Jesus" ("Eu pertenço a Jesus").
A própria Fifa passou, então, a seguir os jogadores brasileiros mais de perto. Isso porque a entidade tem uma regra que proíbe que os uniformes dos jogadores ou peças de roupa que eles vistam apresentem mensagens políticas e religiosas.
Na Copa das Confederações de 2009, quando o capitão da seleção era o evangélico Lúcio, a presença religiosa no cotidiano dos jogadores foi intensa. Após os treinos, havia leitura e estudo bíblico. Na comemoração do título, os jogadores e a comissão técnica se ajoelharam no gramado, fizeram uma roda e, alguns deles com camisetas como aquela de Kaká e outras com a frase "I love Jesus", oraram. A Fifa enviou, depois, um comunicado de advertência à CBF.
Em 2015, quando Neymar conquistou a Champions League pelo Barcelona, comemorou o título após a partida, ainda em campo, com uma faixa na cabeça: "100% Jesus". Mais uma vez, a Fifa não gostou da manifestação e borrou o texto da faixa em todas as imagens e vídeos oficiais da entidade.
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É claro que a moral religiosa evangélica não necessariamente orienta todas as atitudes desses jogadores. No entanto, o idioma religioso oferece a eles a própria linguagem da redenção e do arrependimento público. Esse foi o caso, por exemplo, de Daniel Alves. Inicialmente condenado por agressão sexual e posteriormente absolvido pela Justiça catalã, o jogador fez uma pregação para nada menos que 40 mil pessoas em um evento religioso. Na ocasião, o lateral disse que Cristo o libertou durante seu período preso.
Não é difícil imaginar que, daqui a alguns anos, para ver os craques aposentados, bastará ir até a igreja mais próxima para ouvir o testemunho.
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