O jogo entre Brasil e Japão na segunda-feira (29) fez muita gente se lembrar de "Super Campeões", anime japonês que desembarcou por aqui no fim dos anos 1990 na extinta TV Manchete. Em uma das histórias traduzidas para o português, que é chamada de arco, o protagonista Oliver Tsubasa (originalmente chamado de Tsubasa Ozora) realiza o sonho de enfrentar a seleção brasileira em um torneio nitidamente inspirado na Copa do Mundo. Não ficamos sabendo o placar, o episódio acaba assim que a partida começa. Quem venceria naquela época? E agora?

Uns bons anos atrás, para acompanhar seu personagem preferido em filmes e animes só existia um jeito: estar na frente da TV na hora certa. Até a diversão era uma experiência coletiva. "Eu assistia quando dava. Só havia um aparelho de TV em casa e a preferência era dos adultos", conta o analista financeiro Pedro Paulo, 39 anos. Hoje, com um clique no celular, ele, você e eu acompanhamos a quarta divisão de algum país que acabamos de saber que existe, ao vivo. E sozinho, na maioria das vezes.

A pedagoga Edimari Caldas, 41, conta que o objetivo era o mesmo, acompanhar a trajetória de Tsubasa e seus amigos, mas os adversários eram outros: o tempo e a distância até em casa. "Meu irmão é eu íamos ao projeto social pela manhã, estudávamos de tarde e saíamos correndo para chegar a tempo de ver os desenhos. Passavam vários, entre eles, o Super Campeões". Neste jogo, ela e ele sempre venceram.

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Originalmente chamada Captain Tsubasa, a história do garoto que sonhava ser um jogador profissional chegou para nós com este título bem diferente, buscando a paixão do país pelo esporte. O visual que lembrava os animes que já circulavam por aqui e as histórias facilmente reconhecíveis de amizade, rivalidade entre ruas ou escolas, ajudaram a série a se tornar um sucesso instantâneo. Inclusive entre quem não acompanhava futebol, caso do educador Unilson Mangini Junior.

"Por eu não gostar, o que mais me interessava era toda aquela narrativa e cenas estonteantes. É muito interessante porque algumas técnicas dos jogadores brasileiros na série eram um tipo de poder, um elemento que já conhecíamos", explica. Para o educador, os criadores foram muito inteligentes em transportar a estrutura de outros sucessos, como o dos Cavaleiros do Zodíaco.

"Em Super Campeões, a gente tem ali o mestre do protagonista, que é algo que existe nos animes de luta, mas que aqui era um ex-jogador brasileiro mais velho, que é o técnico". No arco assistido por Unilson, o Brasil vivia o seu auge e era chamado de país do futebol. "Então, imagine para uma criança brasileira receber um anime que fazia tanta referência e reverência ao país, ainda por cima falando de futebol?", analisa.

Pedro lembra que "era muito divertido chegar na escola e conversar sobre o episódio do dia anterior. Como tomavam a bola dando carrinho e o campo parecia infinito. Fora o drama dos personagens e a mágica dos chutes". O primeiro recreio depois que Tsubasa e Misaki chutaram ao mesmo tempo a bola para o gol deve ter durado uns 90 minutos de debate: "vamos tentar ou não fazer isso na semana que vem contra a 5ªD?" Essa mistura de coisas familiares

Por questões legais, os nomes de jogadores, times e torneios eram genéricos, o que deixava a imaginação de quem assistia fazer as associações. A primeira pessoa da sala que levantou a hipótese de que o FC Brancos era o São Paulo e o FC Domingos, o Flamengo, deve ter virado piada na saída da escola. E no fim, ela estava certa. Só alguns anos depois muita gente confirmou a suspeita e tirou um tanto de outras dúvidas da frente, como recorda Edimari.

"Nós não tínhamos tanto acesso às músicas, comida ou às danças japonesas como hoje em dia. Existia uma grande distância cultural entre os países, fruto da distância física, da informação. Com a Internet, os acessos foram facilitados".

Por exemplo, a publicação que deu origem ao sucesso nasceu no Japão como mangá em 1981 e foi adaptada pela primeira vez para a TV dois anos depois. O arco que chegou às casas de Pedro e Edimari é uma adaptação de 1994, que resume a vida escolar e os primeiros campeonatos juvenis. Na época, quase ninguém sabia disso.

É só em "Super Campeões: Rumo ao Sonho", assistido pelo Unilson e lançado na véspera da copa Coréia — Japão 2002, que Tsubasa consegue se tornar um jogador profissional e vai para a Espanha. Sua estreia é substituindo um jogador brasileiro do fictício e poderoso Catalunya. O nome deste jogador? Rival. Tire suas conclusões.

Cultura é o que fica na gente, quando nem sabemos onde vimos aquilo primeiro.

Um anime nunca é apenas um anime. Assim como uma história em quadrinhos, um filme ou uma série, ele conta a história de seu tempo e, ao mesmo tempo, ajuda a construí-lo. A chegada de Tsubasa à TV ajudou a popularizar um esporte que ainda era relativamente novo no Japão dos anos 1980. As produções que vieram depois reforçaram os valores associados à prática do esporte como trabalho em equipe, disciplina e honestidade.

Ao mesmo tempo que construíam novos imaginários sobre onde a seleção nacional gostaria de chegar. Não é à toa que o jogo que encerra um dos arcos é contra o Brasil, às vésperas de uma Copa do Mundo organizada pelo Japão, em 2002. Sobre isso, Unilson observa que o anime chega em terras brasileiras com um título bem mais coletivo do que o original.

"A gente sabe que as coisas giram ao redor da trajetória do Tsubasa, mas a história mostra essa dimensão cooperativa do esporte", chama atenção. Para ele, o recado que está ali é o de que "a vitória depende de um bom passe, da confiança entre os colegas de time e até de coisas incríveis, como o chute duplo". Ou seja, não é sobre um, é sobre todo mundo junto. Sobre um trabalho em conjunto.

Em vários momentos da série, o protagonista Tsubasa afirma esses valores positivos em suas falas, pensamentos e atitudes. Como a ideia de que não podemos vencer a qualquer custo, ou que o meu adversário não é um inimigo, mas sim alguém que tira o melhor de mim em busca de superá-lo em direção ao gol, e por aí vai. "A gente insiste em individualizar o futebol e se esquece que antes do chute para o gol muita coisa aconteceu. Eu gosto disso no Super Campeões, porque ele explica como um único momento depende de tantas outras pessoas", ressalta o educador Unilson.

Ah, e sobre os resultados, o Pedro acredita que aquela estreia de Tsubasa em copas 24 anos atrás, mesmo que no anime, teria sido 3 a 0 para o Brasil. No jogo desta segunda, um 2 a 1 está mais que bom. Já Edimari lembra que tecnicamente a seleção brasileira era bem melhor que seus adversários na época em que assistiu à Super Campeões pela primeira vez. "Aquele jogo seria 4 a 0. Mas hoje, o Japão vem jogando muito. Como eu sou brasileira e não desisto nunca, coloca aí 2x0", pede ela. Ambos, bem mais contidos. Os tempos mudaram.

Texto em que o autor apresenta e defende suas ideias e opiniões, a partir da interpretação de fatos e dados