Um menino, sozinho no quintal, interpreta jogador, goleiro, árbitro e narrador em seu próprio jogo de futebol
Sei que o país está explodindo de tensão política e que os clubes gaúchos agonizam na beira do precipício, mas, até para distrair um pouco meus leitores de pressentimentos apocalípticos, convido-os para uma breve incursão ao país da infância a partir deste episódio que testemunhei recentemente.
— Lá vai o número 10, ídolo da torcida. Dribla um, dribla dois, dá uma caneta no zagueiro. Entra na área e solta a bomba!
A bola bate no paredão de alvenaria e volta forte na direção do chutador. Ágil, o garoto usa as duas mãos para proteger o rosto.
— Defesa es-pe-ta-cu-lar do goleiro! — acrescenta com igual agilidade verbal.
E dá sequência ao seu show solitário de palavras e movimentos. Antes de colocar a bola em jogo novamente, imita o som de um apito.
Agora parece que o placar do jogo imaginário sairá do zero. Mas o artilheiro/goleiro/árbitro/narrador tem mais surpresas. Começa botando suspense na descrição da cobrança do pênalti:
— Toma longa distância. Caminha devagarinho para a bola. Para. Corre. Ameaça bater. O goleiro não se mexe. Chuta...
Silêncio total no estádio do fundo do quintal, lotado por um homem só.
— Isolou! Isolou! — grita o narrador. E inventa um bordão de sua própria lavra para impressionar o público, que vem a ser ele mesmo.
— Bateu lá onde o diabo perdeu as chuteiras. Bota no forno esse pé, ô ruindade!
Apesar da indignação, o jogo continua. O menino polivalente pisa na bola, levanta com um toque de ponta de dedos, lança para o alto, apara no peito e arremata sem deixar cair:
— Craque! Esse é craque! — diz para si mesmo.
Só que desta vez a bola não volta. Fica presa no caibro que segura a ponta do telhado. Num primeiro momento, o narrador comemora:
— No ângulo. Lá onde a coruja dorme! Golaço! Golaço! Sabe de quem? Sabe de quem?
Porém, antes de sair o nome do artilheiro, ouve-se um chiado no estádio, que fica novamente silencioso. O menino olha para cima e se dá conta de que a bola ficara presa num prego