O então lateral-esquerdo do Brasil, Marcelo, reage à derrota para a Alemanha no Estádio do Mineirão, em 8 de julho de 2014, em Belo Horizonte (MG)O então lateral-esquerdo do Brasil, Marcelo, reage à derrota para a Alemanha no Estádio do Mineirão, em 8 de julho de 2014, em Belo Horizonte (MG) — Foto: Francois Xavier Marit - Pool/Getty Images/BBC

A derrota da Seleção brasileira na Copa do Mundo de 2026 por de 2 a 1 nas oitavas-de-final, o pior desempenho dos brasileiros no torneio desde 1990, é mais um capítulo que deve entrar para a história das derrotas mais dolorosas do escrete nacional.

Neste ano, a derrota tem ainda o sabor do jejum: a Seleção canarinho chegara à próxima Copa, em 2030, com um hiato de 28 anos sem erguer a taça — o que nunca ocorreu desde que o time brasileiro foi campeão pela primeira vez, em 1958.

Não tem como fugir dos números. Se o Brasil é o único país a participar de todas as 23 edições da Copa, além de ser o maior campeão — ergueu a taça cinco vezes —, é natural que tenha sofrido 18 dolorosas eliminações. Destas derrotas, com a ajuda de especialistas, a BBC News Brasil elencou as mais traumáticas.

A festa era grande, o Brasil sediava uma Copa do Mundo 64 anos depois da única vez que isso havia ocorrido, em 1950. O time comandado pelo técnico de Luiz Felipe Scolari, se não era unanimidade, tinha ingredientes o suficiente para empolgar — inclusive pela memória afetiva, já que o treinador era o mesmo que havia conquistado o penta em 2002.

Depois de uma primeira fase em que o Brasil ganhou da Croácia — 3 a 1, de virada —, empatou com o México sem gols e goleou Camarões por 4 a 1, o time venceu o Chile nos pênaltis — depois de empatar em 1 a 1 durante a partida — e a Colômbia por 2 a 1.

Na semifinal, encararia a Alemanha no Estádio do Mineirão, em Belo Horizonte. Foi uma tragédia inesquecível: 7 a 1 para o time europeu, que se sagraria campeão dias depois, vencendo a Argentina na final.

O Brasil já perdia por um a zero e tomou outros quatro gols entre os minutos 23 e 29 do primeiro tempo — provavelmente no mais catastrófico "apagão" da história do escrete canarinho. O Brasil ainda perderia para a Holanda na disputa do terceiro lugar — outra goleada, mas mais modesta: "apenas" 3 a 0.

"Foi um balde de água fria, aquele desastre tático", diz o historiador Marcel Tonini, doutor pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisador no Centro de Referência do Futebol Brasileiro, do Museu do Futebol (CRFB). "E eles tiraram o pé, senão seria ainda maior a goleada."

Para o jornalista e pesquisador Celso Unzelte, comentarista da ESPN, consultor do Museu do Futebol, membro da Academia Brasileira de Letras do Futebol e professor na Faculdade Cásper Líbero o marcante da derrota para a Alemanha não foi a derrota em si — mas sim a diferença de gols, "a maneira como o resultado aconteceu". "Perder para a Alemanha seria um resultado absolutamente normal. O placar é que não foi", pontua.

"Foi a pior derrota não apenas pelo placar, mas por tudo o que envolvia aquele jogo", diz o especialista em marketing esportivo Marcelo Paganini de Toledo, professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

"Estávamos jogando uma Copa em casa, havia uma expectativa enorme da torcida e poucos imaginavam um resultado daquela dimensão. Foi uma derrota que ultrapassou o aspecto esportivo e se transformou em um choque para o país."

Jogador alemão Thomas Mueller comemora vitória sobre o Brasil em 2014 — Foto: Jamie McDonald/Getty Images

Também professor de marketing esportivo na ESPM, o administrador de empresas Ivan Martinho explica o misticismo negativo em torno do 7 a 1. "A seleção brasileira é um dos raros elementos capazes de unir um país tão diverso. Durante a Copa, existe no imaginário coletivo uma expectativa quase inevitável de vitória", contextualiza.

"O 7 a 1 foi tão marcante porque representou exatamente o oposto disso: em casa, diante do próprio povo, um símbolo nacional de excelência sofreu uma derrota sem precedentes", acrescenta. "Mais do que um resultado, foi um choque cultural para o Brasil."

Como "o tempo passou, as pessoas também", Unzelte acredita que o 7 a 1 contra a Alemanha em 1954 vieram para apagar o epíteto de "maior derrota" que era dado para o Maracanaço. "Esportivamente foi pior do que o Maracanaço. Mas pelo contexto social e político, eu diria que o Maracanaço foi pior", comenta Tonini.

Era um regulamento diferente o daquela Copa de 1950. Em vez de um jogo final, o campeão seria decidido depois de partidas em um quadrangular com os finalistas. Brasil, Espanha, Suécia e Uruguai chegaram a essa fase.

Antes do derradeiro jogo, o Brasil tinha um ponto a mais que o Uruguai. A partida lotou o recém-inaugurado Maracanã, estádio que então era o maior do mundo — e que foi construído justamente para a Copa do Mundo. Havia um clima de "já ganhou" entre torcedores e imprensa esportiva brasileira.

A partida foi dura. Mas o placar foi aberto pelo Brasil, com o ponta-direita Friaça, logo no comecinho do segundo tempo. O Uruguai, aguerrido, não desitiu. Empatou em gol anotado por Schiaffino e, faltando pouco mais de 10 minutos para o apito final, sacramentou a vitória com Ghiggia. Silêncio absoluto nas arquibancadas. O time celeste se sagraria bicampeão mundial. O Brasil ainda ficaria no jejum.

Pelo contexto social, político e econômico da época, o historiador Tonini acredita que a mais traumática derrota do Brasil em Copas tenha sido esta