Projeto prevê a separação do departamento de futebol da estrutura associativa; eventual entrada de um investidor será discutida posteriormente e dependerá de novas aprovações

José Armando Abdalla Junior preside o Conselho Deliberativo e fará a abertura da assembleia que terá voto secreto dos associados sobre o projeto de SAF (PontePress)

Após semanas de disputas internas e decisões judiciais, a Ponte Preta realiza neste sábado, a partir das 8h, no Salão Nobre Pedro Pinheiro, no estádio Moisés Lucarelli, a Assembleia Geral Extraordinária que colocará em votação a constituição de uma Sociedade Anônima de Futebol (SAF). A votação será secreta e permanecerá aberta até 14h30. Para a aprovação, são necessários dois terços dos associados presentes. 

O presidente Luiz Antonio Alves Torrano defende a mudança de modelo como a alternativa para reorganizar as finanças. A Ponte atravessa uma grave crise financeira, com salários de jogadores, comissão técnica e funcionários em atraso. Segundo auditoria contratada pelo clube, a dívida está estimada em cerca de R$ 320 milhões, enquanto o déficit operacional mensal chega a aproximadamente R$ 2,8 milhões. Torrano afirma que uma eventual rejeição da SAF agravaria uma situação que já considera grave. 

O processo começou em 17 de junho, quando o Conselho Deliberativo aprovou a constituição da SAF por 108 votos a 22. A proposta prevê a cisão do departamento de futebol das demais atividades associativas, modelo que será submetido aos associados. A Assembleia deste sábado, portanto, não aprovará a entrada de um investidor nem a venda de ações. O objetivo é referendar a decisão tomada pelo Conselho Deliberativo e autorizar o clube a avançar na estruturação da empresa. Qualquer contrato com investidores ainda dependerá de nova aprovação do Conselho Deliberativo e nova Assembleia Geral Extraordinária. 

O novo encontro foi convocado depois que a reunião de 24 de agosto terminou sem votação. Na ocasião, a sessão foi suspensa após tumultos dentro e fora do estádio e a apresentação de decisões liminares obtidas por integrantes da oposição. Uma das determinações judiciais exigia que a Ponte esclarecesse o modelo de SAF a ser submetido aos associados. Outra estabeleceu exigências relacionadas ao acompanhamento e ao registro da reunião. 

O edital atual determina que os trabalhos sejam instalados pelo presidente do Conselho Deliberativo, José Armando Abdalla Junior, e que a votação ocorra por meio de cédulas depositadas em urna. O associado deverá deixar o recinto depois de votar. A Justiça também determinou medidas para assegurar o acompanhamento do processo, entre elas a presença de tabeliães e a filmagem da assembleia. O Conselho informou ainda ter solicitado reforço de segurança à Polícia Militar. 

Paralelamente à discussão institucional, existe uma proposta de grupo interessado em assumir o futebol por meio da SAF. O plano apresentado soma cerca de R$ 1 bilhão e prevê R$ 300 milhões para o futebol profissional e a base ao longo de dez anos, R$ 300 milhões para o pagamento de dívidas e outros R$ 400 milhões para obras e modernização do Moisés Lucarelli e do Centro de Treinamento do Jardim Eulina. A minuta prevê que o estádio e o CT permaneçam como patrimônio da associação, embora o Majestoso possa ser cedido à SAF para exploração comercial. 

A proposta também estabelece que a futura controladora fique responsável pela gestão do futebol profissional e da base. No modelo discutido, 85% das receitas do futebol e da exploração comercial do estádio ficariam com a SAF, enquanto 15% permaneceriam com a associação. O plano prevê ainda um aporte inicial de recursos, condicionado ao cumprimento de exigências jurídicas e financeiras. Parte desse dinheiro já foi antecipada, segundo a diretoria, enquanto o restante depende da aprovação da constituição da SAF. 

A operação prevê duas frentes para o passivo. Uma possibilidade é negociar individualmente com os credores para obter descontos. Outra é a adesão da Ponte a um programa de Recuperação Judicial, com os pagamentos assumidos pelo futuro investidor. O projeto também prevê a modernização do Majestoso e intervenções no CT, com possibilidade de transformar o estádio em arena multiuso para shows e eventos.

A votação deste sábado ocorre, portanto, antes da eventual análise de qualquer contrato de investimento. Se os associados aprovarem a constituição da SAF, a diretoria poderá avançar nas negociações com os interessados, mas a operação ainda terá de passar pelas instâncias previstas no Estatuto. Se a decisão for contrária, a diretoria terá de buscar outra alternativa para enfrentar o passivo e os atrasos que hoje atingem o clube