Derrota para a Noruega reacendeu discussão sobre religião e futebol; das 22 Copas disputadas, só a de 1966 foi vencida por um país não católico
Eis uma curiosidade sobre a Copa do Mundo: das 22 edições já disputadas, só a de 1966 foi vencida por um país definitivamente não católico, a Inglaterra.
Agora, alguns brasileiros sugerem, com certa ironia, que a transição do catolicismo para o protestantismo evangélico pode ser um dos fatores por trás da queda do país na elite do futebol mundial.
Há ressalvas à teoria do domínio católico. A Alemanha Ocidental, tricampeã, era dividida quase ao meio entre católicos e protestantes (a Alemanha reunificada, campeã em 2014, tem proporção um pouco maior de católicos). Além disso, todos os demais campeões (Argentina, Brasil, Espanha, França, Itália e Uruguai) são hoje países bastante secularizados. Chamá-los de “países católicos” é uma simplificação.
Ainda assim, são mais católicos do que qualquer outra coisa. A cultura católica permeia o futebol, mesmo quando os jogadores não frequentam igrejas. O jornalista Simon Kuper fez essa observação no livro “World Cup Fever“: “A iconografia das Copas do Mundo é católica. Reservas fazem o sinal da cruz antes de entrar em campo. Um jogador punido por falta muitas vezes junta as mãos para pedir perdão ao árbitro.”
Há outro dado: os nomes mais citados no debate sobre o melhor jogador de todos os tempos (Pelé, Maradona, Lionel Messi e Cristiano Ronaldo) são católicos. Quem seria o maior jogador protestante da história? Johan Cruyff? George Best? Ambos brilhantes, mas não no mesmo patamar.
A derrota da seleção brasileira para a da Noruega, país de tradição protestante, no domingo (5.jul.2026), acendeu o debate sobre filiação religiosa no país que venceu a Copa 5 vezes.
O Brasil tem a maior população católica do mundo, e a religião sempre foi dominante no país, política e culturalmente, apesar da Constituição laica. A estátua do Cristo Redentor, iconografia distintamente católica, domina a paisagem do Rio de Janeiro. Das favelas à Amazônia, as comunidades têm igrejas católicas estabelecidas há muito tempo.
Mas o cenário está mudando. O protestantismo evangélico cresce com rapidez, sobretudo nas grandes cidades. Demógrafos projetam que os evangélicos podem superar os católicos em número nas próximas décadas.
O protestantismo evangélico é cada vez mais presente no esporte. O movimento Atletas de Cristo, fundado nos anos 1980, foi a expressão pioneira dessa nova religiosidade no futebol. Um dos primeiros nomes de destaque foi o goleiro Taffarel, que levantou a taça em 1994. Depois veio Kaká, que assistiu do banco à final de 2002 e celebrou o título com a camiseta “I Belong to Jesus” (“Eu pertenço a Jesus”).
Lúcio, capitão do Brasil no título da Copa das Confederações de 2009, foi outra figura central. Aquela final terminou com uma roda de oração coletiva no gramado, o que resultou em discussões sobre a proibição da Fifa a mensagens religiosas.
Os fundamentos cristãos do catolicismo e do protestantismo evangélico são compartilhados, mas os símbolos externos são muito diferentes: mãos postas e sinais da cruz dão lugar a dedos apontados para o céu, camisetas com mensagens e rodas de oração em campo.
Há também vínculos fortes entre o protestantismo evangélico e a política conservadora. Muitos jogadores brasileiros declararam apoio a Jair Bolsonaro (PL), ex-presidente condenado pelo STF (Supremo Tribunal Federal) por tentativa de golpe para reverter o resultado da eleição de 2022.
Dentre os apoiadores estão Rivaldo, Romário e Ronaldinho, da geração pentacampeã, e nomes atuais como Thiago Silva, Lucas Moura e, principalmente, Neymar, que inundou as redes sociais com mensagens pró-Bolsonaro antes da eleição de 2022.
A camisa amarela do Brasil, por muito tempo um símbolo secular de identidade nacional, passou a ser associada ao bolsonarismo. Apoiadores do ex-presidente a vestiam quando invadiram as sedes dos Três Poderes em Brasília, em 8 de janeiro de 2023, na tentativa de reverter o resultado eleitoral.
O fenômeno não é exclusivo do Brasil. Na Colômbia, Abelardo de la Espriella, apoiado por Donald Trump e vencedor da eleição presidencial mais recente, fez campanha com frequência vestindo a camisa amarela da seleção do seu país, acompanhado de apoiadores.
No Brasil, houve tentativas de ressignificar a camisa, mas esse é um processo lento, e fica mais difícil quando a seleção joga mal.
A camisa amarela do Brasil já foi um elemento de união, um dos símbolos mais icônicos do esporte mundial. Era a peça que um país inteiro vestia junto a cada 4 anos, durante uma sequência notável de 12 Copas, de 1958 a 2002, em que o Brasil disputou 6 finais e venceu 5.
Desde 2002, a seleção chegou a só 1 semifinal em 6 tentativas, justamente a da traumática derrota por 7 a 1 para a Alemanha, em casa, em 2014.
É exagero dizer que o protestantismo em si tirou o futebol-arte do Brasil. A principal razão é mais prosaica: o elenco atual simplesmente não é muito bom