Um estudo com quase 1 milhão de partidas de futebol amador disputadas na Alemanha chegou a uma conclusão que vai na contramão do que boa parte da ciência vinha apontando até agora: em dias de calor extremo, os jogadores cometem menos faltas violentas, e não mais.

A pesquisa, publicada na revista científica "PNAS Nexus", mostra que o número de cartões amarelos e vermelhos aplicados pelos árbitros cresce conforme a temperatura sobe — mas só até um certo limite.

Depois desse ponto, a curva se inverte, e as partidas disputadas em dias muito quentes registram, em média, 15% menos cartões do que o normal.

Há décadas, estudos em diferentes áreas associam calor a mais violência, de brigas de rua a crimes domésticos, alimentando até projeções de que o aquecimento global tende a aumentar conflitos no futuro.

O problema é que grande parte dessas evidências vem de experimentos de laboratório com grupos pequenos ou de registros criminais, que têm limitações conhecidas: no caso dos crimes, por exemplo, o calor também muda o comportamento das vítimas e a própria rotina das pessoas nas ruas, o que confunde a análise.

⚽ Para tentar isolar o efeito puro da temperatura, os pesquisadores recorreram a um ambiente bem mais controlado: o futebol amador.

Eles analisaram partidas disputadas entre julho de 2022 e setembro de 2025 nas divisões amadoras da federação alemã de futebol, envolvendo mais de 1 milhão de jogadores.

A vantagem desse recorte é permitir uma comparação mais controlada: as regras são as mesmas, as partidas são marcadas com semanas de antecedência, sem influência da previsão do tempo, e os jogadores não podem abandonar o campo simplesmente porque a temperatura subiu.

Assim, usando os cartões distribuídos pelos árbitros como um indicador de agressividade em campo, e comparando partidas do mesmo local, liga e temporada para eliminar outras variáveis, os cientistas identificaram uma curva em formato de U invertido: a quantidade de cartões cresce junto com a temperatura até por volta de 13°C e, a partir daí, começa a cair.

➡️ Acima de 32°C, ápice da amostra, o efeito já é bem visível.

Segundo ele, o resultado chama atenção justamente por contrariar o senso comum: "exatamente nas temperaturas em que a visão convencional prevê mais agressividade, observamos menos, não mais".

A explicação mais provável, segundo os pesquisadores, não é psicológica, mas física.

Grande parte das faltas que rendem cartão nasce de disputas de bola em alta intensidade — carrinhos mal calculados, entradas atrasadas, disputas de cabeça no limite do esforço.

Em dias muito quentes, os jogadores parecem administrar melhor as próprias forças, como um maratonista que reduz o ritmo para não desabar antes da linha de chegada.

Com menos lances de alta intensidade, sobram também menos oportunidades para uma falta acontecer.

Dois achados do próprio estudo reforçam essa leitura: o ponto de virada calculado, por volta de 13°C, coincide com a faixa de temperatura já apontada por outras pesquisas como ideal para o desempenho físico prolongado.

Além disso, a queda é mais forte nos cartões amarelos — geralmente ligados a lances de disputa física — do que nos vermelhos, que costumam punir infrações sem relação direta com esforço, como ofensas verbais ao árbitro.

Os autores também descartaram, com base em pesquisas anteriores, a hipótese de que os próprios árbitros mudassem seu critério de julgamento com o calor: estudos já mostraram que a capacidade de decisão de árbitros de futebol não piora em condições de calor extremo, o que reforça que a mudança está no comportamento de quem está em campo, e não em quem apita o jogo.

Árbitro brasileiro Wilton Pereira Sampaio dá cartão vermelho durante o jogo de abertura da Copa do Mundo (México x África do Sul) — Foto: Yuri Cortez/AFP

Apesar do tamanho da amostra, os próprios pesquisadores fazem ressalvas. Apenas 0,2% das partidas analisadas foram disputadas acima de 32°C, e a maior parte do banco de dados vem de times masculinos, o que limita a possibilidade de generalizar os achados