Brasil e Japão se enfrentam nesta segunda-feira (29), pelo mata-mata da Copa do Mundo, em um duelo que vai além das quatro linhas. O confronto coloca frente a frente o país do futebol e uma seleção cuja ascensão mundial teve um ingrediente pouco comum: os animes.

Nas últimas quatro décadas, o Japão transformou o esporte em uma paixão nacional graças a um projeto que uniu investimentos, profissionalização e um fenômeno da cultura pop capaz de inspirar milhões de crianças a sonharem com a bola nos pés.

De Captain Tsubasa a Blue Lock, diferentes gerações cresceram acompanhando histórias que ajudaram a popularizar o futebol no país, influenciaram jogadores profissionais e até provocaram debates sobre os métodos de formação adotados pelas categorias de base.

O resultado desse movimento extrapolou a ficção. Hoje, o Japão é presença constante em Copas do Mundo, exporta talentos para as principais ligas da Europa e chega ao mata-mata de 2026 consolidado entre as seleções mais competitivas da Ásia.

O Lance! relembra como os animes ajudaram a impulsionar a paixão pelo futebol no Japão e a ligação histórica construída entre a seleção japonesa e o Brasil.

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O encontro em Houston também reúne dois protagonistas de uma história iniciada muito antes desta Copa do Mundo. Ainda na década de 1980, quando o futebol japonês sequer havia se profissionalizado, o Brasil ocupava um lugar especial na principal obra esportiva do país.

Em "Captain Tsubasa", também conhecido como "Super Campeões", vestir a camisa de um clube brasileiro e enfrentar a seleção pentacampeã representava o auge da carreira do protagonista. Décadas depois, parte daquela ficção parece ter ganhado contornos reais.

O Japão chega ao mata-mata do Mundial apoiado em uma geração consolidada na Europa e fruto de um processo que uniu planejamento esportivo, fortalecimento das categorias de base e uma mudança cultural iniciada fora dos gramados.

Mas, antes de inspirar uma geração de jogadores e se tornar um símbolo da ascensão do futebol japonês, "Captain Tsubasa" também nasceu de uma história real. O mangá criado por Yoichi Takahashi foi inspirado por um acontecimento que mudou a forma como o Japão enxergava o futebol e ajudou a dar início a uma revolução que décadas depois se refletiria dentro de campo.

Muito antes de Oliver Tsubasa sonhar em jogar futebol no Brasil, outro japonês atravessou o mundo para perseguir exatamente esse objetivo. A história começa em 1974, quando Pelé visitou escolas de Tóquio a convite do governo japonês, logo após sua despedida do Santos.

O país sequer tinha liga profissional, e o futebol disputava espaço com sumô, beisebol e badminton. Durante aquela visita, o Rei reparou em um garoto de dez anos que chamava atenção pela habilidade com a bola. O jovem era Musashi Mizushima, que havia começado a jogar futebol com apenas dois anos de idade, treinado de forma rigorosa pelo pai, e já integrava o time da escola em Shizuoka aos cinco anos. Pelé indicou aos pais que tentassem a sorte no Brasil.

Em 1975, Mizushima deixou o Japão ainda adolescente. Fez testes no Santos, mas o Peixe não tinha categoria de base para atletas tão jovens à época. Seguiu tentando até ser aprovado no São Paulo. Foram praticamente dez anos nas categorias de base do Tricolor, passando pelo primeiro time sub-11 da história do clube até o sub-20. Destro, chegou do Japão como ponta esquerda, recuou para o meio e terminou a carreira na lateral direita.

Mizushima fez apenas um jogo oficial pelo São Paulo, contra o Bragantino em 21 de abril de 1985, quando entrou no segundo tempo – tornando-se o primeiro asiático a atuar oficialmente no futebol brasileiro. No ano seguinte, foi emprestado ao São Bento.

Ainda teve passagens por Portuguesa e Santos antes de retornar ao Japão, onde participou da criação da J.League e ajudou no desenvolvimento do futebol japonês. Durante a passagem pelo Brasil, construiu amizade com Careca, um dos maiores atacantes brasileiros da década de 1980.

Foi justamente essa trajetória que inspirou o mangaká (termo usado para roteirista ou artista que cria mangás) Yoichi Takahashi a lançar, em 1981, Captain Tsubasa. Publicada na revista "Weekly Shōnen Jump", a obra acompanhava a história de um garoto apaixonado por futebol e determinado a colocar o Japão entre as maiores potências do esporte. O Brasil ocupava papel central na narrativa: ao longo da carreira, Tsubasa atua pelo Brancos FC, equipe fictícia com uniforme praticamente idêntico ao do São Paulo.

Mas a ligação da obra com a América do Sul foi além do Brasil. Em 1979, o Japão sediou a Copa do Mundo sub-20, como uma tentativa do governo de popularizar o esporte no país. A Argentina de Diego Maradona e Ramón Díaz passou por cima da competição: seis jogos, seis vitórias, apenas dois gols sofridos. O "Pibe de Oro" foi o melhor jogador do torneio e virou fenômeno no Japão. Takahashi assistiu a tudo pela televisão e ficou impressionado.

– Há muito de Maradona na minha obra. Não pude estar no estádio, mas vi todo o torneio na televisão. Conhecia Maradona, tinha uma ideia de como ele era incrível, mas seu rendimento me impactou. O Maradona que vi na televisão tinha uma aura avassaladora – explicou o autor.

A influência de Maradona é visível na obra. O cabelo e a fisionomia de Oliver Tsubasa foram inspirados no craque argentino. Os longos dribles em campo praticamente infinito – era comum ver o protagonista conduzir a bola por muitos segundos – foram inspirados no gol que Maradona marcou contra a Inglaterra na Copa de 1986, driblando praticamente o time inteiro.

– O gol em que Maradona driblou toda a defesa inglesa e outras jogadas tiveram grande influência na maneira de Oliver Tsubasa jogar. Particularmente, criei o personagem Juan Diaz diretamente inspirado em Maradona, incluindo seu estilo de jogo e sua personalidade – finalizou