Após a ameaça de boicote da Uefa, o plano da Fifa de vender uma participação nos direitos comerciais da Copa do Mundo ganhou um novo capítulo nesta sexta-feira (31/7). Carlos Cordeiro, principal assessor de Gianni Infantino, presidente da entidade, anunciou sua renuncia do cargo em protesto contra a proposta.

Ex-presidente da Federação de Futebol dos Estados Unidos e ex-vice-presidente do banco Goldman Sachs, Cordeiro estava na Fifa desde 2021. Em comunicado publicado no LinkedIn, ele confirmou a renúncia, com efeito imediato, e afirmou que não participou da elaboração da proposta.

“Como assessor sênior do presidente da Fifa, ex-banqueiro e torcedor de futebol durante toda a vida, não posso permanecer enquanto a Fifa considerar vender uma participação na Copa do Mundo. Não tenho qualquer envolvimento nessa proposta e me oponho a ela de forma inequívoca. É um mau negócio para as federações, para o futebol e para o futuro do esporte”, escreveu Carlos Cordeiro.

No texto, Cordeiro também criticou a falta de transparência sobre a proposta. Segundo ele, a prioridade da Fifa deve ser proteger o futebol, e não maximizar receitas comerciais.

“Depois de uma análise cuidadosa, não posso continuar na função de assessor sênior do presidente da Fifa. Por isso, renunciei com efeito imediato. Quando os interesses comerciais entram em conflito com a proteção do esporte, o futebol deve vir em primeiro lugar”, completou.

A proposta da Fifa também provocou reação de entidades do futebol. Na quinta-feira (30/7), as 55 federações filiadas à Uefa concordaram, em uma reunião de emergência, em boicotar as competições organizadas pela Fifa, incluindo a Copa do Mundo, caso Infantino mantenha o projeto de criar uma empresa para administrar os ativos comerciais do torneio e vender parte dela a investidores privados.

"Como Conselheiro Sênior do Presidente da FIFA, ex-banqueiro e apaixonado por futebol ao longo de toda a minha vida, não posso ficar de braços cruzados enquanto a FIFA considera vender uma participação na Copa do Mundo.

Quero deixar claro: não tenho nenhum envolvimento nesta proposta e me oponho a ela de forma inequívoca. É um mau negócio para as Associações Membro da FIFA, um mau negócio para o futebol e um mau negócio para o futuro do esporte a longo prazo.

O futebol sempre foi uma parte central da minha vida e, após mais de 35 anos no setor bancário, compreendo tanto o valor deste ativo quanto as consequências de abrir mão de parte dele. É por isso que esta proposta deve ser rejeitada.

A FIFA já tem acesso a recursos financeiros extraordinários. A organização dispõe de bilhões de dólares em reservas e não possui dívidas. O próprio presidente da FIFA destacou os US$ 15 bilhões em receitas geradas entre 2022 e 2026. Se as Associações Membro acreditam que são necessários investimentos adicionais para desenvolver o futebol, a FIFA já tem capacidade financeira para oferecer esse apoio com seus recursos existentes. Diante desse cenário, vender uma participação permanente no ativo mais valioso do futebol para arrecadar US$ 4,2 bilhões faz pouco sentido. É hipotecar o futuro do futebol sem qualquer justificativa convincente.

Esse sucesso econômico não aconteceu por acaso. Ele foi construído por profissionais experientes no futebol, que bateram recordes comerciais da FIFA. No entanto, apesar dessas conquistas, agora pedem que a FIFA acredite que investidores externos são necessários para gerar um valor ainda maior. Não aceito essa tese. As pessoas que construíram esse sucesso já demonstraram que a FIFA possui a expertise necessária para continuar desenvolvendo tanto o futebol quanto seu futuro comercial.

O mais preocupante de tudo é a ausência de respostas para questões fundamentais. Por que este negócio? Por que agora? Que mecanismos de supervisão existem? Quem se beneficia? Houve um processo competitivo? Que estrutura de governança será imposta? O que os investidores ganharão, em última instância, e qual será o custo para o futebol?

Essas questões permanecem, em grande medida, sem resposta e, ainda assim, as Associações Membro são chamadas a tomar uma decisão de enormes consequências em pouco mais de 50 dias, sob o risco de ficarem para trás. Essa não é uma forma responsável de definir o futuro do futebol mundial.

Esta proposta se tornou uma questão decisiva para o futuro da FIFA. Após uma análise cuidadosa, não posso mais continuar exercendo minha função de Conselheiro Sênior do Presidente da FIFA. Por isso, apresentei minha renúncia com efeito imediato.

A responsabilidade da FIFA não é maximizar os retornos comerciais a qualquer custo. É proteger e fortalecer o futebol para as futuras gerações. Quando esses princípios entram em conflito, o futebol deve vir em primeiro lugar.

Foi um privilégio de uma vida servir à FIFA por mais de cinco anos e trabalhar ao lado de pessoas dedicadas e íntegras, que se importam profundamente com o futebol. Espero que elas também se manifestem, porque decisões dessa magnitude devem ser tomadas no interesse do futebol, e não daqueles que pretendem lucrar com ele."