Vivemos dias em que todo mundo parece ter uma conspiração de bolso, uma teoria conspiratória pra chamar de sua, uma armação secreta de estimação. Em tempos de Copa do Mundo, todo lance mais ou menos discutível vira a prova de que Elvis não morreu, que Kennedy foi assassinado pelos cubanos ou que Haaland é um ET arcturiano. Não seria diferente com um lance tão absolutamente decisivo como o gol anulado da Croácia contra Portugal no último minuto.
Para quem não viu o lance, o contexto: aos 58 minutos do segundo tempo, Portugal vencia por 2 a 1. Ataque croata. Perisic cruza na área, Matanovic toca de cabeça. O toque deixa Stanic livre para cruzar para Gvardiol empatar. O toque também deixa Stanic impedido. O VAR anulou o lance exibindo um microeletrocardiograma que demostraria que a IMU (Unidade de Medida Inercial) do chip tinha sido ativada pelo leve toque de Matanovic.
Vitória da tecnologia e da correção, certo? Errado, amigo! Acordei nessa sexta lendo nas redes longas teses sobre impossibilidades físicas do chip. Vale compartilhar duas. A primeira é quase um tratado:
Queremos código-fonte e toque impresso! De repente, porém, devemos ouvir uma outra opinião? Quem sabe... a de Matanovic:
Isso deveria encerrar o debate, certo? Não! O passo seguinte é discutir se cabelo vale! Como os leitores desta coluna sabem, uma tese querida desta coluna é que toda teoria conspiratória é autoimune. Quem duvida da conspiração... é porque faz parte dela.
Pode haver uma conspiração mais atraente do que a FIFA armando para manter Cristiano Ronaldo na Copa? Por algum motivo, porém, não avisaram sua excelência, o apitador. O polêmico gol aconteceu no décimo terceiro minuto de acréscimo. O juiz tinha previsto dez inicialmente. Se tivesse esquema... ele não deveria ter acabado antes? Nenhuma conspiração se importa com indícios que possam desmenti-la.
O VAR é uma evolução. Sem ele o futebol seria mais injusto. "Ah, mas prefiro o erro humano..." Desculpe, isso é falácia. O erro humano era crucificado dia sim dia também. Num jogo com tantas câmeras, o erro crasso atacava a credibilidade do esporte. Ah, mas precisamos modular o VAR e adaptar as regras. Esse é outro debate.
A arbitragem na Copa tem dado vários motivos para questionamento – em geral no campo subjetivo. O pênalti marcado sobre Renato Gomes, por exemplo, teve semelhantes ignorados em várias partidas. Mas quando começamos a reclamar do acerto objetivo... é porque cedemos espaço a nosso mais íntimo neandertal – o torcedor