Talvez uma das maiores contradições do esporte moderno esteja justamente no seu espetáculo mais global. A Copa do Mundo da FIFA nunca reuniu tantos ídolos de origens diversas ocupando o centro da cena mundial. Ainda assim, racismo e xenofobia não apenas persistem como, em muitos contextos, se intensificam.

Há algo de paradoxal nisso: o mesmo evento que celebra a mistura de estilos, sotaques e trajetórias também expõe o quanto essa diversidade ainda é aceita de forma condicionada. Dentro de campo, ela vira narrativa de superação, talento e mérito. Fora dele, continua atravessada por fronteiras muito mais rígidas do que o espetáculo sugere.

Ser admirado em campo não significa ser plenamente aceito na sociedade. A camisa da seleção pode até funcionar como símbolo de integração momentânea, mas não dissolve automaticamente hierarquias sociais, raciais ou culturais. O futebol globalizado vende a imagem de um mundo conectado, mas essa conexão nem sempre se traduz em pertencimento real.

É nesse ponto que o esporte deixa de ser apenas espelho e passa a ser também palco de disputa narrativa: quem pertence, quem representa, quem pode circular com legitimidade. E é justamente aí que discursos nacionalistas mais duros encontram terreno fértil — porque eles não precisam negar a diversidade visível; precisam apenas redefinir seu significado.

Nesse sentido, Donald Trump não funciona apenas como uma figura isolada, mas como um operador político de uma gramática mais ampla baseada na produção contínua de antagonismos. Sua retórica sobre imigração e “invasões”, a insistência em uma identidade nacional ameaçada e a transformação do estrangeiro em risco permanente não são apenas escolhas discursivas: elas reorganizam o modo como o medo circula na esfera pública.

Casos como o de Vinícius Júnior, alvo recorrente de insultos racistas em estádios europeus, e de Bukayo Saka, que sofreu ataques racistas massivos após a final da Euro 2020, expõem a permanência de uma violência que convive, sem grande dificuldade, com a celebração da diversidade dentro de campo.

Nesse cenário, até decisões disciplinares passam a ser rapidamente capturadas por disputas simbólicas mais amplas. Um cartão vermelho aplicado a um jogador norte-americano e posteriormente revisto pela FIFA, por exemplo, ganhou forte repercussão política após manifestações do ex-presidente Donald Trump. Sua intervenção no episódio — ao tratar o caso esportivo como extensão natural da arena política doméstica — foi lida como expressão de uma lógica de poder que não reconhece fronteiras simbólicas entre Estado, espetáculo e autoridade.

O resultado é um ambiente em que o futebol parece cada vez mais atravessado por uma gramática de poder que o ultrapassa, como se a autonomia do jogo fosse sempre provisória diante de disputas políticas de alcance global.

O resultado é uma espécie de paradoxo contemporâneo: o esporte global nunca exibiu tanta diversidade em seus protagonistas, mas isso não impediu o fortalecimento de discursos que tentam reorganizar essa presença em novas hierarquias, agora travestidas de “ordem”, “segurança” ou “identidade cultural”. A celebração da diversidade dentro de campo convive, sem qualquer desconforto, com a tentativa permanente de restringi-la fora dele.

E é nesse intervalo — entre o espetáculo e a vida social — que o futebol revela as tensões do mundo que o cerca.

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