A notícia de que o avião da seleção brasileira retornou ao Brasil, após o fracasso na Copa do Mundo, transportando apenas dois jogadores, ganhou espaço nos noticiários esportivos. Confesso que estranhei a surpresa. Estranho seria se tivesse voltado com todos.

Afinal, para onde voltariam? A maioria dos jogadores vive na Europa. Suas casas, suas famílias, seus filhos e sua rotina estão do outro lado do Atlântico. Muitos sequer jogaram profissionalmente no Brasil por tempo suficiente para construir uma relação duradoura com os torcedores. Se olharmos com atenção, sequer atuaram pelos maiores clubes do país. Se resolvessem caminhar pelas ruas de uma grande cidade brasileira, talvez alguns pudessem até ser reconhecidos. Outros, provavelmente, passariam despercebidos.

Esse detalhe aparentemente banal ajuda a compreender uma transformação muito mais profunda: a seleção brasileira deixou de ser, há muito tempo, a seleção dos brasileiros. Tornou-se, na prática, o time da CBF.

Pode parecer apenas um jogo de palavras, mas não é. A camisa amarela continua sendo apresentada como símbolo da nação. O escudo remete ao Brasil. O hino continua sendo executado antes das partidas. Mas quem controla esse patrimônio simbólico é uma entidade privada, que decide onde a equipe joga, com quem joga, quanto arrecada, quem explora comercialmente sua imagem e quais interesses econômicos orientam sua existência.

O que assistimos nas últimas décadas foi um silencioso processo de privatização de um dos maiores símbolos nacionais. Mas não se trata de uma privatização formal, como as empresas estatais vendidas durante os anos 1990 pelos governos de Fernando Henrique Cardoso. Trata-se da apropriação privada de um patrimônio coletivo, legitimada pela ausência de controle público e naturalizada pela sociedade como pertencente a outrem sem que saibamos explicar como. 

Não é coincidência que esse processo tenha se consolidado justamente durante a década de 1990. A onda neoliberal que atravessou a América Latina, de Carlos Menem a Fernando Collor, difundiu a ideia de que tudo poderia ser transformado em mercadoria. As empresas públicas, serviços, direitos sociais e até mesmo símbolos nacionais.

No futebol brasileiro, esse movimento encontrou seu principal operador na gestão de Ricardo Teixeira. Herdeiro político de João Havelange, ele transformou a CBF numa potência econômica global. A seleção passou a excursionar pelo mundo em amistosos organizados segundo interesses comerciais, muitas vezes longe do torcedor brasileiro. A lógica esportiva cedeu espaço à lógica do mercado privado. Até uma suntuosa sede foi erguida como símbolo do poder. Inaugurada no dia 26 de março de 2014, o edifício administrativo está localizado na Barra da Tijuca, na Zona Oeste da cidade do Rio de Janeiro, protegido por grades e seguranças. 

Pouco a pouco, a seleção foi deixando de ser uma experiência compartilhada pela população brasileira para tornar-se uma marca internacional administrada por uma confederação privada. Esse processo também revela uma das características mais persistentes da formação política brasileira: o patrimonialismo.

Pensadores como Raymundo Faoro buscaram mostrar, como em Os Donos do Poder, como as elites brasileiras desenvolveram uma notável capacidade de tratar aquilo que pertence ao conjunto da sociedade como extensão de seus próprios interesses. A fronteira entre o público e o privado sempre foi uma linha quase inexistente  no Brasil. O futebol não escapou dessa lógica.

A CBF exerce uma espécie de concessão informal sobre símbolos que pertencem à identidade nacional. Administra a camisa, o escudo, a memória e o imaginário do futebol brasileiro sem mecanismos efetivos de controle social, embora esses símbolos transcendam, em muito, a própria entidade.

Talvez isso explique por que o retorno da delegação tenha provocado tão pouca mobilização popular. Não houve multidões esperando no aeroporto para protestar. Não houve comoção nacional. Não houve sequer curiosidade em acompanhar a chegada da maior parte dos jogadores. O avião voltou praticamente vazio porque a seleção já não volta para casa, não pertence ao Brasil. Na verdade, ela saiu de casa há muito tempo.

O que desembarcou no Brasil foi apenas a delegação da CBF. A seleção brasileira, entendida como patrimônio afetivo, cultural e político do povo, vem sendo rapidamente substituída por uma marca global administrada segundo interesses privados pelos dirigentes da CBF. O fracasso desta Copa não foi dentro das quatro linhas.

Ele começou quando naturalizamos a ideia de que um dos mais poderosos símbolos da identidade nacional pudesse deixar de pertencer, simbolicamente, aos brasileiros para tornar-se patrimônio exclusivo de uma entidade privada.

É preciso refundar o futebol brasileiro. Reconectá-lo ao povo. 

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