O Brasil foi derrotado pela Noruega nas oitavas de final da copa do mundo 2026. Teve pênalti perdido, reedição de gol sofrido em eliminações passadas, e ex-craque pagando de personagem principal, brigando com o goleiro adversário enquanto perdia de dois. Ao final, como é de costume, torcedores, jornalistas, jogadores aposentados, todos viramos especialistas e bradamos nossas opinões à cerca do futuro da seleção brasileira.
Demorei um pouco para escrever esse artigo porque não queria cair nas armadilhas da emoção. Se estivesse simplesmente reagindo à derrota, falaria da escolha por Bruno Guimarães para bater pênalti, reclamaria da forma como projetamos um sonho em cima de um jovem de 19 anos, que ele nunca poderia cumprir, ou comentaria sobre a escolha de levar Neymar para a copa, e sua substituição que melou o jogo contra a Noruega. Mas muito já se falou sobre tudo isso. Você, que vê o futebol como eu, já pensou sobre isso também.
Algumas horas após o término da partida, conversando com amigos antes do jogo entre México e Inglaterra, percebi que não me sentia tão triste com essa eliminação quanto com a de 2022. Na época, vi a derrota como cenário de tragédia, a última chance de uma geração de jogadores que havia ficado marcada pelo 7×1, do mais bem-sucedido técnico brasileiro da década, em meio a um cenário de devastação no futebol nacional, onde a grande esperança brasileira, Endrick, com 16 anos, já estava vendida para o futebol europeu.
Quatro anos depois vimos que a geração que podia ter se ausentado como brava mas infeliz, preferiu se impor mais uma vez e fechar (quiçá) sua participação em copas como egocêntrica e falível; vimos como a chegada de um treinador europeu de primeira prateleira para comandar a seleção foi o pontapé no traseiro que os guardiões-técnicos brasileiros estavam precisando; e, acima de tudo, vivemos um cenário de febre financeira da liga brasileira (inflacionada por dinheiro oriundo de apostas), onde os mais ricos times competem com clubes europeus pela contratação de jogadores. Não paramos no tempo. Mas em meio a apelos de jornalistas iludidos, Neymar pai e Neymarzetes pela manutenção de Neymar na seleção, viagens de jogadores e técnico para curtir o pós-copa fora do país, e uma desconexão da CBF com o torcedor brasileiro, não sei ao certo qual caminho estamos trilhando.
Em 2023, Marcelo ‘El Loco’ Bielsa, então desempregado após deixar o Leeds United, foi convidado para assumir a seleção mexicana e fazer a preparação do time para a copa de 2026. Bielsa, como é de costume, teria feito alguns pedidos da federação, dentre eles: Comprometimento e apoio da federação ao seu projeto (que deveria ser de longa duração); adoção de sua filosofia de jogo por parte dos técnicos das categorias de base da seleção; supervisão direta do time sub-20 mexicano; restruturação da Granja Comary mexicana, que, caso não fosse concluída dentro de um ano, abriria as portas para Bielsa deixar o cargo. A federação teria negado seus pedidos. Foram atrás de Javier ‘El Vasco’ Aguirre para sua terceira passagem pela seleção. O mexicano aceitou o emprego sem as mesmas demandas, provavelmente sabia também que trabalharia só até a copa, para que depois se iniciasse a necessária reformulação que Bielsa pedia, e o argentino foi para o Uruguai.
No comando da seleção uruguaia, Bielsa fez jus ao apelido. Foi alvo de um motim na copa de 26, encabeçado por Federico Valverde e Sergio Rochet (porta-vozes dos jogadores que já não aguentavam mais a personalidade e a filosofia de Bielsa), e durante a copa América de 24, entrou em conflito com a estrela do time, Luis Suárez. Embora já não mostrasse o futebol que um dia lhe deu a alcunha de craque, Suárez ainda era uma figura influente dentro do vestiário, mas sua liderança não combinava com a de Bielsa, que ansiava por uma renovação. A passagem pelo Uruguai não trouxe novas honrarias ao técnico. Sua maior vitória talvez tenha sido a batalha que travou com Suárez, que, após amargar o terceiro lugar na copa América, se aposentou da seleção.
Sabendo como a história de Bielsa terminou no Uruguai, fica fácil julgar agora a escolha pelo técnico. Também parece fortuita a decisão da seleção mexicana por um técnico mais adequado para instigar o país que sediaria a copa, vide Scolari antes da copa de 2014. Mas encerradas suas campanhas em 2026, ambas as seleções ainda precisam de renovação. No México, de cabeça erguida, ela será comandada por Rafa Márquez, herói nacional e assistente de Aguirre na copa. No Uruguai, desolado após uma de suas piores participações em copa, reina a incerteza.
A seleção brasileira vive algo entre o Uruguai e o México. A derrota para a Noruega crava a pior campanha em copas desde 1990. Mas ao que tudo indica, a CBF não pensa em troca de técnico neste momento. Carlo Ancelotti teve seu contrato renovado antes da convocação para a copa, e terá a oportunidade de encabeçar uma reformulação na equipe até 2030. O italiano diz estar animado com a possibilidade, e tem como primeira responsabilidade afastar da seleção um ex-craque (aquele que jogou também com Suárez).
Foi uma obrigação que ele evitou, ou foi pressionado a evitar, nesta copa. Ancelotti é conhecido por ser de centro-esquerda, mas conviveu bem com figuras conservadoras dentro do futebol: Silvio Berlusconi, Roman Abramovich, Florentino Pérez… Tem jogo de cintura, aquiesceu à pressão ‘extra-campal’—seja ela da alta cúpula da CBF, de patrocinadores, ou do filho de Gilmar Mendes—e convocou Neymar para sua quarta copa. Além dele, convocou mais 15 jogadores que estiveram na edição de 22, dentre os quais sete se encaminhavam para sua terceira copa do mundo. Não é pecado convocar por experiência (a copa de 26 bateu recorde com oito jogadores convocados com mais de 40 anos), mas foi uma estratégia que não deu certo, e não há razão para insistir no erro nesse ciclo que se iniciou após a derrota para a Noruega.
Não falta ao Brasil jovens talentos. Aliás, nunca faltou. Talvez as grandes promessas não sejam mais as mesmas, mas como escola de futebol, o Brasil não se importa em vestir a camisa de exportador. De acordo com dados do Centro Internacional para Estudos de Esporte (CIES), entre 2017 e 2022, o Brasil teve o maior número de jogadores expatriados (1219) ao redor do mundo. Em segundo lugar ficou a França, com 300 jogadores a menos.
Falta, porém, uma estratégia para revelar esses jogadores. Na última década, as escolinhas brasileiras focaram em moldar pontas, volantes e zagueiros. Talvez porque sejam as posições financeiramente mais interessantes de se moldar. Mas sentimos os resultados dessa estratégia na seleção. Nos falta atacantes de área, meias de criação, laterais, e goleiros. A copa de 2010 foi a última na qual todas essas posições foram bem convocadas. Voltar a fomentar esses talentos não é um trabalho simples, mas é necessário. E começar hoje não garante que estejamos mais preparados para a copa de 2030.
Em 1988, a federação francesa de futebol inaugurou um centro de treinamento de base nos arredores de Paris que buscava unificar o processo de lapidação de jovens talentos no país. O centro de treinamento Clairefontaine foi uma resposta à continuas campanhas ruins em copas e competições europeias, e aos triunfos recentes de rivais como Alemanha e Espanha. O projeto foi idealizado anos antes pelo então presidente da federação francesa de futebol, Fernand Sastre. Colocou no comando do CT o técnico romeno, Stefan Kovács (até hoje o único técnico estrangeiro a comandar a seleção francesa), que estabeleceu padrões de treinamento focando, principalmente, em aprimorar as capacidades técnicas e mentais dos jogadores. Mas mesmo com Clairefontaine inaugurado, o processo de ascensão da seleção não foi imediato. Antes de sagrar-se campeã do mundo pela primeira vez, em 1998, a França sequer se classificou para as copas de 90 e 94.
Hoje, Clairefontaine é um de 13 CTs da seleção espalhados pelo país. Após a eliminação, a CBF se mostrou interessada no trabalho realizado na França, talvez pelos méritos esportivos—no século 21 a França esteve em três finais de copa; o Brasil não passa das semifinais desde 2002—ou comerciais. A ironia, no caso, é que embora tenha participado na formação de craques como Kylian Mbappé, Paul Pogba e Thierry Henry, Clairefontaine não é rememorado como um triunfo do capital. Se a CBF quiser espelhar o trabalho no Brasil, não poderá transformá-lo em uma oportunidade de negócios.
Outra seleção que vêm apresentado um trabalho de base invejável é a da Espanha. O técnico da seleção principal, Luis de la Fuente, foi contratado em 2013 para comandar o sub-19 espanhol. Fez seu nome vencendo torneios de base e subindo categorias—passou pelo time sub-21 e pela seleção olímpica. Jogadores como Marc Cucurella, Unai Simón, e Mikel Oyarzabal passaram pelas três categorias junto com de la Fuente, e foram titulares na vitória contra a França na semifinal. Venceu ainda a Eurocopa de 2024, e a Nations League de 2023. Seu time olímpico de 2021 incluiu oito jogadores que foram convocados para essa copa. Na ocasião amargou a medalha de prata. O ouro ficou com o Brasil, dos quais só dois jogadores ainda fazem parte do time principal: Matheus Cunha e Bruno Guimarães.
Em 2026, de la Fuente leva seus jogadores à mais uma final. É a prova de que trabalhos de longa duração ainda dão certo no futebol contemporâneo, este que é tão regrado pelo imediatismo. E talvez dê até razão à Bielsa, que em 2023 pediu à seleção mexicana controle sobre as categorias de base, e uma ideia unificada de desenvolvimento de jogadores dentro de um mesmo estilo. O Brasil não está preparado para embarcar em tal projeto. Ancelotti também não foi contratado para isso. As metas esportivas da CBF para seu próximo ciclo começam com um triunfo na copa América de 2028, e o primeiro lugar nas eliminatórias sul-americanas.
Vivemos agora o nosso mais longo jejum entre títulos de copa. E não há garantia de que a vitória venha já na próxima. A própria Espanha, após a conquista em 2010, só voltou a vencer um jogo de mata-mata de copa em 2026. Mas um ciclo iniciado e terminado com um só treinador é um bom começo. Ancelotti talvez imagine que a era Neymar acabou na seleção (pelo menos dentro de campo), e tem agora a chance de rejuvenescer o time. De novo, é um bom começo. Se vamos ser campeões em 2030, ou não, pouco importa. O projeto brasileiro como um todo precisa de renovação, de fortalecimento da liga nacional, de menos exportação de talento, de menos empresários e políticos dando as cartas, e mais profissionais que prezam pelo futebol como esporte, como cultura, e não como oportunidade de negócio.
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