O pedido de recuperação judicial das Casas Bahia traz de volta uma célebre declaração do ex-presidente do Flamengo Eduardo Bandeira de Mello. Ao ser questionado sobre o risco de grandes clubes desaparecerem ou mudarem seus núcleos de grandeza, Bandeira sempre citou empresas como Mesbla, Mappin e banco Bamerindus. Podia citar o Banco Nacional, o Unibanco.
O realismo de Bandeira ajuda a compreender por que times falidos de quinze anos atrás viraram potências nacionais e como podem voltar ao passado se não cuidarem do futuro. Casos de Flamengo e Palmeiras. Acontece que, neste momento, estes dois clubes somam-se apenas a Athletico Paranaense, Bahia, Bragantino e Mirassol como times fora das listas das recuperações judiciais ou de transfers bans nacionais ou internacionais.
O caos foi ilustrado nesta semana pela entrevista coletiva do presidente da Torcida Tricolor Independente, Henrique Gomes, o Baby. Depois de reunião com líderes do elenco do São Paulo, declarou que os salários estão atrasados. Logo depois, o camisa 10 são-paulino, Luciano, declarou que o problema não é o salário atrasado, porque atrasos acontecem desde 2020, quando chegou ao Morumbi.
Há cinco anos, durante a campanha que levou o Botafogo à Série B, o ex-presidente alvinegro, Carlos Augusto Montenegro, foi questionado se pagaria os salários atrasados antes do clássico contra o Flamengo, para ganhar do rival. Respondeu: "Não vou pagar atrasados, porque não temos dinheiro. E, se tivéssemos dinheiro, não pagaria por superstição." O argumento era ter vencido o Brasileirão de 1995 com quatro meses de atrasos.
O noticiário ironiza meses de noventa dias no futebol Emmanuel Sodré Viveiros de Castro, do Botafogo. Os ciclos mudam, houve crises gigantescas no Fluminense, no Flamengo, no Atlético, hoje no Corinthians, o São Paulo foi modelo de administração, hoje de desmando, o Palmeiras foi mal administrado, depois recuperado...
Mas, hoje, a situação é caótica. Depois de cinco anos gastando dinheiro injetado por empresários compradores de SAFs, casos de Botafogo e Vasco, quantias das compras de direitos comerciais de clubes pela FFU, caso do Internacional, ou de patrocínios de casas de apostas, que beneficiaram 39 dos 40 times das Séries A e B antes de a Crefisa sair da camisa do Palmeiras e torná-lo o quadragésimo exemplo, a bolha estourou.
No passado, houve injeção de dinheiro transformada em gastos excessivos no início dos anos 1990, com Parmalat, Banco Exxel e banqueiros do jogo do bicho, no início dos 2000, com a entrada de capital estrangeiro de ISL e Bank of America, mas o volume de investimentos era menor e as dívidas, consequentemente, menores. Como o dinheiro aumentou, os gastos e as dívidas também subiram de forma extraordinária.
A força da grana que ergue e destrói coisas belas, neste momento, coloca quinze clubes da Série A entre os que têm notícias de recuperações judiciais (Botafogo, Coritiba, Cruzeiro e Vasco), de banimento de transferências em algum momento do ano (Chapecoense, Corinthians, Grêmio, Internacional, Santos, São Paulo), ameaça de transfer ban, que o Atlético Mineiro já teve, ou advertência da Agência do Fair Play Financeiro, como o Fluminense.
Justiça seja feita, o Flu está fora das punições e recebeu apenas advertência. O Cruzeiro está pagando tudo em dia depois da recuperação judicial. E há 37 clubes em recuperação judicial ou extrajudicial no país, entre os quais o Náutico, o Santa Cruz e o Sport, os três gigantes do Recife.
O sonho de ter um campeonato capaz de rivalizar com Inglaterra, Espanha ou pelo menos França e Itália esbarra na impossibilidade de pagar salários de nível semelhante evidenciada pela sequência de notícias de atrasos. E até de um jogador importante do São Paulo dizendo que o problema não é o atraso.
O problema é que o futebol brasileiro virou o slogan das Casas Bahia da época da campanha do pentacampeonato mundial: "Quer pagar quanto?"
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