Inegavelmente, a Copa do Mundo é evento de grande porte, que mexe com o cotidiano das cidades brasileiras. Jogos da Seleção Brasileira, por exemplo, podem provocar alterações no funcionamento de serviços públicos, comércio e transporte.

Enquanto repartições de trabalho ficam vazias, bares se enchem de pessoas com camisas verde e amarelas, que às vezes estavam guardadas ou até esquecidas no canto de um armário. Ruas voltam a ser pintadas com símbolos patrióticos. De quatro em quatro anos, o Brasil se lembra que é o país do futebol.

Contudo, mesmo neste período em que a pátria calça chuteiras, muitos torcedores têm dificuldades de se conectar com a Seleção Brasileira atual.

Para isso há motivos variados, como a ausência de títulos recentes, a divergência ideológica e política dos atletas que defendem o time, os escândalos recentes da CBF e o fato de que 19 dos 26 jogadores convocados pelo técnico Carlo Ancelotti  defendem clubes do exterior e são pouco conhecidos por aqui.

A mídia também pode contribuir, pois muitas vezes mostra na cobertura o que há de mais superficial na vida desses atletas: dinheiro, fama, conquistas amorosas... Uma bolha social luxuosa, com relações baseadas em interesse e ostentação.

Porém, se o dinheiro nem sempre compra a identificação dos torcedores, há outras formas de se sentir representado por quem entra em campo com as cores do país  durante a Copa do Mundo. Por trás de cada um dos atletas, há uma trajetória de vida repleta de lutas, sonhos e dificuldades.

Vinícius Júnior, por exemplo, se tornou um dos maiores símbolos globais na luta contra o racismo, pois desde que começou a se destacar no Real Madrid, tem sido alvo recorrente de ataques em estádios europeus.

Nascido em uma família humilde no bairro de Mutuá, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio de Janeiro, o atacante revelado no Flamengo cobra medidas severas das autoridades esportivas para punir agressores.

A FIFA inclusive, nesta Copa do Mundo, adotou a "Lei Vini Jr.", um protocolo que determina a expulsão imediata de jogadores que cobrirem a boca com as mãos durante discussões no gramado.

Já  Endrick nasceu em Taguatinga, no Distrito Federal, e teve uma infância marcada por dificuldades financeiras severas. Pai do atleta, Douglas conta, chorando, um relato emocionante, de um dia em que o jovem pediu algo para comer e não havia absolutamente nada na geladeira.

Diante do desespero do pai, o pequeno Endrick, que tinha apenas 11 anos na época, o consolou e prometeu que se tornaria jogador de futebol para tirar a família daquela situação.

Dito e feito. Endrick foi aprovado para jogar na base do Palmeiras. Para ajudar na renda e ficar perto do filho, o pai trabalhou na equipe de limpeza do clube paulista por três anos, antes do craque explodir nos profissionais e ser vendido ao gigante Real Madrid.

Hoje em dia, com apenas 19 anos de idade, Endrick está na primeira Copa do Mundo da carreira. É também um poliglota: fluente em espanhol e inglês, passou a dominar também o francês, desde que foi emprestado ao Lyon.

O centroavante Igor Thiago também enfrentou dificuldades na infância. Perdeu o pai com 13 anos e passou a ajudar a mãe, gari, fazendo serviços informais como feirante, servente de pedreiro e entregador.

Quem diria que, 11 anos depois, atuando pelo Brentford, na Inglaterra, ele quebraria o recorde de gols de um brasileiro em uma única edição da concorrida Premier League? Foram 22 gols na temporada 2025/26.

Durante uma entrevista na Copa do Mundo, Danilo ganhou as manchetes por um discurso incomum para um jogador de futebol. O veterano lateral, de 34 anos, disse que pretende estudar psicologia e psicanálise quando encerrar a carreira nos gramados. 

Na pandemia, ele criou o  Voz Futura. É uma plataforma digital que tem como foco o compartilhamento de histórias inspiradoras, reflexões sobre saúde mental e debates sobre comportamento humano, impacto social e empreendedorismo.

O auge da carreira de um jogador profissional é disputar uma Copa do Mundo. Mas para chegar até lá, cada atleta, feito de carne, ossos e alma, teve sua cota de superação, ainda mais em um país repleto de mazelas sociais.