Presidente nacional do Partido dos Trabalhadores diz que essa é uma opinião pessoal e que também deve ser levado em conta o avanço de jogos ilegais depois da proibição decretada por Lula

O presidente nacional do PT (Partido dos Trabalhadores), Edinho Silva, defendeu a construção de um período de transição para retirar as bets do financiamento do futebol brasileiro. Em entrevista ao Poder360, afirmou que a discussão deve levar em conta o impacto da saída das empresas de apostas sobre o financiamento de clubes e competições esportivas.

Segundo ele, essa é uma opinião pessoal, já que o partido nunca formulou uma posição coletiva sobre o tema.

Edinho disse que concorda com a decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) de proibir os jogos de aposta on-line no Brasil. Ressaltou, porém, que a medida pode favorecer o avanço de plataformas clandestinas.

“A proibição das bets pode abrir espaço para que os jogos on-line se desenvolvam de forma clandestina, na ilegalidade, e o jogo ilegal pode acabar sendo apropriado pelo crime organizado e utilizado como instrumento de lavagem de dinheiro”, declarou.

A decisão do governo foi formalizada pela MP 1.394, de 25 de setembro de 2026. A iniciativa foi associada à preocupação com o endividamento dos brasileiros e ao impacto eleitoral da restrição às apostas. Nesse cenário, Edinho defende que a saída das empresas do futebol seja discutida de forma gradual, levando em conta os efeitos econômicos da medida sobre o setor.

A seguir, trechos da entrevista de Edinho Silva ao Poder360:

Poder360 – O que o PT acha da proposta do economista André Lara Resende para mudar a política monetária e cortar a taxa de juros de maneira mais rápida?
Edinho Silva – Essa proposta nunca foi debatida no PT ou com o presidente Lula, nem há agenda construída para isso.

Qual foi o principal acerto e o principal erro do PT na campanha eleitoral de 2026?
Uma eleição não se ganha nem se perde por um único fator. O resultado é consequência de um conjunto de circunstâncias, decisões e ações políticas construídas ao longo do processo eleitoral. A eleição de 2026 foi extremamente difícil, certamente uma das mais difíceis da história brasileira. Não enfrentamos apenas um candidato. Enfrentamos, sobretudo, um sentimento de mudança que já estava presente na sociedade antes mesmo do início da campanha.

Esse sentimento não é exclusivo do Brasil. É um fenômeno mundial, resultado de profundas transformações econômicas e sociais. Desde a crise de 2008, a economia mundial enfrenta dificuldades para retomar um crescimento sustentável. Ao mesmo tempo, vivemos uma transformação do sistema produtivo talvez comparável, em sua profundidade, à Revolução Industrial. A incorporação da robótica, da informática e, mais recentemente, da inteligência artificial ao sistema produtivo e ao setor de serviços está transformando profundamente o mundo do trabalho. Essas mudanças, associadas à financeirização da economia, têm provocado concentração de renda, precarização das relações de trabalho e perda de poder aquisitivo de parcelas importantes da classe trabalhadora, especialmente dos setores médios e daqueles que tradicionalmente dependiam do emprego formal.

Esse processo produz insatisfação e um sentimento generalizado de mudança. As pessoas vão às urnas, votam, mas não percebem melhorias significativas em suas condições de vida. Isso acaba colocando em xeque a própria democracia. É um sentimento que tem sido apropriado pela direita e pela extrema direita em diversas partes do mundo. Basta observar as últimas eleições na América Latina, nas quais, majoritariamente, os governos que estavam no poder foram derrotados.

No Brasil, iniciamos o processo pré-eleitoral com esse sentimento já presente na sociedade. Ele se aprofundou com as denúncias envolvendo o Supremo Tribunal Federal. E, naturalmente, quem paga o maior preço político diante de um sentimento generalizado de mudança é quem está governando, é o incumbente. 

Além disso, enfrentamos a manifestação aberta do governo Trump contra a candidatura do presidente Lula, a atuação das big techs e um enorme poderio econômico. Basta comparar o volume de recursos arrecadados pela candidatura de Flávio Bolsonaro com as doações recebidas pela campanha do presidente Lula.

Portanto, enfrentamos uma correlação de forças extremamente adversa.

Mesmo nesse cenário, conseguimos construir importantes acertos políticos e organizativos. Organizamos palanques para o presidente Lula nos 27 Estados da Federação, algo inédito, e constituímos coordenações estaduais de campanha com a participação dos partidos aliados e dos movimentos sociais.

Também realizamos um movimento político decisivo ao impedir que os partidos de centro aderissem à candidatura de Flávio Bolsonaro no 1º turno. Isso evitou que ele tivesse o dobro do nosso tempo de televisão e rádio. Analisando o resultado do 1º turno, considero que essa foi uma decisão estratégica muito acertada, talvez decisiva para as condições de disputa no segundo turno. Esse movimento certamente evitou uma margem maior na “abertura da dianteira”.

Do ponto de vista da linha política, também considero correta a decisão de recuperar o legado do presidente Lula. O 3º governo Lula foi o mais exitoso da história brasileira em volume de entregas à população. Não poderíamos abrir mão desse legado. Era necessário demonstrar o que havia sido realizado e, ao mesmo tempo, sinalizar para o futuro. Quem fez poderia fazer ainda mais.

O problema é que as denúncias envolvendo o Supremo fizeram com que o sentimento de mudança fosse capturado pela candidatura de Flávio. Mesmo com o presidente Lula defendendo as investigações e afirmando que ninguém estava acima da lei, sua condição de presidente dificultava que esse sentimento se identificasse com nossa candidatura.

Quando conseguimos deslocar o protagonismo das denúncias e das decisões do Supremo do centro do debate eleitoral e estabelecer o confronto entre os projetos de país, já não havia tempo suficiente para reverter o sentimento que havia sido apropriado pela candidatura adversária. Não tenho dúvida de que esse foi um fator decisivo para a vitória de Flávio Bolsonaro no 1º turno.

No 2º turno, entretanto, o cenário político mudou. Flávio passou a reivindicar de maneira mais explícita o legado do governo de seu pai e a defender suas políticas. Isso nos permitiu recuperar o verdadeiro confronto entre 2 projetos de país. Demonstramos o que representou o governo Bolsonaro: o congelamento do salário mínimo e das aposentadorias, o desmonte do SUS, a retirada de recursos da educação, as perdas de direitos e a condução do país durante a pandemia