A Fifa rejeitou nesta segunda-feira e classificou como "inadmissível" a contestação da Bélgica contra a decisão que suspendeu a punição do atacante americano Folarin Balogun por um cartão vermelho na Copa do Mundo, em uma controvérsia que extrapolou o futebol e chegou à política. Com isso, a federação belga terá apenas a opção de recorrer à Federação de Futebol dos Estados Unidos (U.S. Soccer) para questionar a escalação do jogador.

"O Comitê de Apelação da Fifa declarou inadmissível o pedido apresentado pela Federação Real Belga de Futebol (RBFA)", afirmou a entidade em comunicado. "O pedido foi considerado inadmissível porque a RBFA não é parte do processo e, portanto, não tem legitimidade para recorrer da decisão”.

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, defendeu a decisão de liberar Balogun para a partida e afirmou que os órgãos judiciais da Fifa operam de forma "independente e autônoma". Mais cedo, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, confirmou ter pedido a Infantino que revisasse a suspensão do jogador e classificou como "brilhante" a decisão tomada pela Fifa de reintegrá-lo antes da partida contra a Bélgica por uma vaga nas quartas de final do Mundial.

"Ele [Balogun] não fez nada de errado e é nosso melhor jogador", disse Trump a repórteres no Salão Oval. "Quando tiram seu melhor jogador e dizem 'você não pode jogar', isso é muito injusto."

Trump também questionou a qualidade da arbitragem do brasileiro Raphael Claus, que expulsou Balogun, dizendo que ele é "um pouco suspeito, se você verificar o histórico dele". O presidente não deu detalhes.

Balogun, que marcou três gols no torneio, foi expulso após revisão do VAR por atingir, com as travas da chuteira, a parte de trás da perna do defensor Tarik Muharemovic e depois seu pé, durante a vitória dos EUA sobre a Bósnia e Herzegovina na fase de 32 avos de final.

O cartão vermelho implicava a suspensão automática de uma partida, o que deixaria Balogun fora do confronto desta segunda-feira contra a Bélgica. Em vez disso, a Fifa suspendeu a punição por um período probatório de um ano, sem anular o cartão.

Até o ex-presidente da Fifa Sepp Blatter, que deixou o cargo em 2015 em meio a acusações de corrupção, juntou-se às críticas contra a medida da entidade.

"Cartões vermelhos não são revertidos por telefonemas políticos. São revertidos por regras, provas e órgãos independentes", disse ele. "Se um presidente dos EUA intervém junto ao presidente da Fifa, e um jogador é subitamente liberado antes de uma partida eliminatória da Copa do Mundo,a pergunta é inevitável: Quo vadis, Fifa? O futebol jamais deve se tornar um playground para o poder político."

A RBFA, por sua vez, afirmou que ainda não recebeu da Fifa nenhuma decisão nem explicação sobre a elegibilidade de Balogun e que, por isso, não teve alternativa senão contestar sua condição de jogo.

O Comitê de Apelação é presidido pelo americano Neil Eggleston, mas a Fifa afirmou que ele não participou da decisão.

Ainda assim, a federação belga informou que comunicou à U.S. Soccer que contestará a elegibilidade de Balogun caso o jogador conste na súmula do árbitro antes do início da partida. "Isso mantém em aberto todas as demais medidas que possam ser tomadas", afirmou a RBFA. "Até o momento, a RBFA ainda não recebeu os fundamentos dessa decisão, nem as informações que vem solicitando desde o início deste procedimento."

A Bélgica havia pedido uma cópia da decisão e da fundamentação que declarou Balogun apto a jogar, além do relatório do árbitro.

Mais cedo nesta segunda-feira, a RBFA também afirmou que a Fifa considerou sua correspondência solicitando informações como se fosse um recurso formal e a rejeitou por questões técnicas.

"Para que um recurso seja admissível, os próprios regulamentos da Fifa determinam que a decisão fundamentada deve primeiro ser comunicada ao recorrente", afirmou a entidade belga. "Enquanto a RBFA buscava apenas explicações legítimas, a própria Fifa transformou esse pedido em um recurso e imediatamente garantiu que ele fosse declarado inadmissível”, prosseguiu.

"Tudo isso ocorreu ao mesmo tempo em que a Fifa se recusava a responder aos pedidos legítimos da RBFA."

A federação belga também afirmou que a Fifa retirou da apresentação da reunião técnica pré-jogo a seção sobre suspensão automática de jogadores expulsos e não explicou essa alteração, apesar de repetidos pedidos de esclarecimento, feitos verbalmente e por escrito.

"Independentemente do resultado esportivo desta partida, a RBFA está profundamente preocupada com o desenrolar dos acontecimentos e continuará lutando, nas próximas horas, dias e meses, em defesa dos princípios fundamentais da ética, da competição justa e dos interesses do futebol como um todo", concluiu a entidade.

O episódio se tornou a maior polêmica do torneio, atraindo críticas da entidade europeia do futebol, a Uefa, que afirmou que a Fifa "cruzou uma linha vermelha", da Federação Real Belga de Futebol, de várias federações nacionais, além de técnicos, dirigentes e políticos. Os críticos argumentam que a Fifa minou a confiança em seu próprio sistema disciplinar.

Para a Uefa, a decisão de suspender a punição foi equivocada. "Expressamos nossa incredulidade diante de uma decisão tão sem precedentes, incompreensível e injustificável", afirmou a Uefa. "A decisão de ontem... cruzou uma linha vermelha."