Dono da maior receita do futebol no Brasil, o Flamengo está cada vez mais próximo de atingir os limites de exploração de rendas tradicionais como Match Day, contratos de TV e patrocínios de camisa.

É verdade que o Maracanã tem uma nova administração para potencializar o estádio e que o clube pretende negociar melhor o próximo acordo de TV. Mas o estádio não vai crescer, nem o Brasileiro vai valer mais de uma hora para outra.

Para aumentar receitas, a diretoria do Flamengo mira uma nova fronteira: o entretenimento do esporte, também chamado Sportainment. A ideia central é transformar o clube em uma máquina de produtos para entreter seus torcedores diariamente.

"O guarda-chuva é Sportainment. Fizemos muito benchmark (pesquisa de exemplos) de times do NBA, NFL, clubes europeus. O esporte é o ponto central, mas tem outros pontos", explica a diretora de comunicação e conteúdo do Flamengo, Flávia Da Justa.

"Como constrói outras receitas entendendo a demanda do torcedor? Flamengo não tinha pesquisa estruturada para entender a torcida, os anseios. Qual cluster vive o Flamengo vai intensivamente? O que sabia intuitivamente se provou que o torcedor vive o clube além dos 90 minutos. Vivenciar a camisa, produtos, estar atualizado sobre repertório", completa a executiva.

A pesquisa, feita com 1.500 pessoas, demonstrou que 90% da torcida vive fora do Rio de Janeiro.

Como resposta, o Flamengo começou a organizar seus negócios em torno do torcedor. Primeiro, unificou todos os seus pontos de relacionamento com o torcedor e serviços em um único site, quando antes havia vários.

Dessa plataforma é possível achar todas as ramificações, desde o sócio-torcedor, o programa Fla-Prêmios, o Fla-Anjo (programa de incentivo de esporte olímpico) e também a produção de conteúdo de notícias, a Flamengo TV, entre outros.

Da Justa admite que não está inventando a roda: trata-se de organizar o que já existe porque o clube cresceu rápido.

Além disso, o Flamengo criou uma plataforma ou hub de produção de conteúdo, chamado Uruhub. A intenção é explorar a maior rede de seguidores do Brasil no segmento esportivo, segundo dados do clube, que inclui 90 milhões de contas em todas as redes.

"Tem o maior ecossistemas do Brasil, com 90 milhões de seguidores. Youtube, Instagram, Kwai. Posso ser criador. Fazer um documentário em co-produção. Antes licenciava como o documentário sobre Libertadores, 2019. Não vai mais fazer. Eu vou contar a minha própria história. Pensar em internacionalização. Posso botar em streaming internacionais. O que foi feito na Fórmula 1. Visão de legado e de deixar documentários", conta Da Justa.

Um dos primeiros projetos é um filme para cinema, e depois streaming, sobre o mascote Urubu. Contar a história de como um animal que come carniça, e é preto, transformou-se no símbolo do Flamengo, um dos mais citados pela torcida em promoções. E que há também, de acordo com o clube, um elemento de racismo de rivais na sua origem, por ser a torcida rubro-negra em boa parte pobre e preta.

A Flamengo TV, mais consolidada, se torna uma unidade de negócios que vai concorrer por publicidade com empresas como Cazé TV ou Grupo Globo. O Rubro-Negro é também agora uma empresa de mídia, explica Da Justa. O que não impede que ocorram colaborações e parcerias com essas empresas.

Outro ponto são arquivos de jogos do clube, sejam vídeos ou fotos. O conceito, neste caso, é não de gerar renda, mas de ter um legado do clube, da sua história.

No campo de licenciamento, o Flamengo criou a marca própria Gávea de roupas sociais. Ocupa um nicho que é bem explorado com gigantes como Adidas, Nike ou Puma. Foi contratada a agência Ana Couto para trabalhar na marca do Flamengo: entender com quem o clube deveria se associar de forma mais estratégica.

"O Flamengo está dando um passo importante ao enxergar o torcedor de forma integrada, conectando esporte, entretenimento, tecnologia e relacionamento em uma única plataforma. O conceito de sportainment amplia as possibilidades de interação e cria oportunidades para que o clube esteja presente na jornada do fã de maneira mais frequente e relevante. Quando há a combinação de dados, inteligência artificial e uma operação centrada na experiência do torcedor, é possível entregar conteúdos, benefícios e ativações mais personalizadas, fortalecendo o vínculo emocional com a torcida e abrindo novas frentes de receita", explicou Henrique Borges, vice-presidente da Somos Young, empresa de tecnologia que atua na área de relação com torcedor e tem como clientes Corinthians, Cruzeiro, Vasco, Grêmio e Vitória.

É uma visão bem similar a de Thiciana Simão, CEO da AdSports, que busca patrocínios para clubes e eventos.

"Unificar a jornada do torcedor amplifica o leque do clube para a geração de novas receitas. Entre outras coisas, entender o comportamento dos fãs é importante para realizar ativações de patrocínio, já que os clubes conseguem entender detalhadamente com quais nichos estão conversando e quais produtos podem funcionar. Além disso, também é um ativo para prospectar novas marcas, pois permite apresentar dados concretos sobre a base de sócios, por exemplo, e demonstrar como ela pode ser aproveitada em estratégias de divulgação."

Da Justa ainda não sabe quanto o Flamengo pode expandir suas receitas com sua exploração do Sportainment. Sabe que há dinheiro na mesa para ser arrecadado pelo clube com diversas iniciativas não exploradas.

"No Balanço do Real Madrid, é onde essas receitas estão crescendo. Oportunidades têm muito, tem que fazer plano de negócios, usar o branding como metodologia, usar a estratégia melhor para cada lugar. Se quiser sair da Flamengo TV e ir para Instagram, muda a decisão no dia a dia" contou a diretora do Flamengo