Jogou com raça. Ganhou na raça. Vitória no peito e na raça. São expressões elogiosas clássicas no mundo do futebol. E que raça seria essa, capaz de tais façanhas? A nossa, diz cada país.

Terceiro lugar em 1958, derrotada pelo Brasil por 5 a 2, a França era um time totalmente branco. Quarenta anos depois foi campeã em 1998 com um timaço cheio de árabes e africanos, e começou a colecionar vitórias, e a enegrecer o time, até ser uma equipe africana com dois ou três europeus. A França colonial e racista teve que aturar. Agora os heróis se chamam Dembélé, Mbappé, Konaté, Koné, ninguém mais é Pierre ou François. A ascensão dessa potência esportiva fez mais pela luta antirracismo do que mil discursos.

O exemplo foi seguido, com atraso, pelos Estados Unidos, justamente onde os atletas negros brilham no esporte, onde o soccer sempre foi esporte de branco, e nunca brilhou em nenhuma Copa. Só agora, com 12 jogadores african americans, eles têm um time forte e competitivo. Um rude golpe nos supremacistas brancos trumpistas.

A Inglaterra, potência colonial, começou antes a integração no futebol e hoje, entre algumas das maiores estrelas da Premier League e da seleção, 15 são de ascendência africana.

Mesmo caso da Holanda e seus ex-colonizados voltando como cidadãos e estrelas do futebol, um time de louros e pretos caribenhos e africanos de sucesso.

Quase não há uma seleção sem africanos, até o Japão tem um goleiro nipo-africano. Cinco dos melhores jogadores alemães são de origem africana. Até a Suécia, de população branca homogênea, tem jogadores negros brilhando na seleção. Até a Espanha branca, bem racista, vide episódios de Vini Jr, tem o seu grande craque no pretinho Lamine Yamal.

No Brasil, o futebol nasceu como esporte de brancos e mauricinhos — e o da massa eram as competições de remo na Praia do Flamengo. O Vasco da Gama, time de portugueses, foi o primeiro a ter jogadores pretos, em 1923, e foi campeão com um time de operários brancos e negros, contra a elite do futebol carioca: Fluminense, Flamengo e Botafogo. É dessa época que nasceu a lenda que o Fluminense passava pó de arroz na cara dos jogadores pretos para fazê-los passar por brancos. Claro que é implausível e inverossímil, quem vai acreditar num truque ridículo desses? Imaginem o Didi ou o Paulo César Caju com a cara cheia de pancake como Trump. Mas é uma fake news que persiste no tempo e foi até incorporada pela torcida que recebe o time com nuvens de pó de arroz.

Um grande clássico sobre o racismo no nosso futebol é “O negro no futebol brasileiro”, de Mário Filho, irmão de Nelson Rodrigues, contando a história da ascensão do futebol brasileiro movida por atletas negros, como Pelé, Garrincha e Didi ganhando a Copa do Mundo de 1958 e maravilhando o mundo com o futebol-arte. É a vitória do talento e a dedicação contra o preconceito e a opressão. A bola rola para todos.

De lá para cá, não se discute sobre uma eventual supremacia africana, caucasiana ou asiática no futebol, mas sobre a luta contra o racismo