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Mísseis, tiros e drones foram lançados e voltaram a intensificar o conflito no Golfo Pérsico. Será esta uma guerra a sério ou uma guerra de faz de conta?

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Começa agora mais um Contracorrente das manhãs 360. Recomeçou a guerra no Irão e quase não demos por isso. Para participar, só tem que ligar para nós 91 002 41 85, mas há outras formas de fazer parte. Pode deixar os seus comentários no nosso site, nas nossas redes sociais ou enviar a sua mensagem de voz por WhatsApp. O número é sempre o mesmo, não muda: 91 002 41 85. Carla. Depois de uma semana de escaramuças com ataques iranianos a navios que navegavam no Estreito de Ormuz e bombardeamentos americanos a alvos no Irão, Trump anunciou o fim do cessar-fogo, o recomeço das operações militares e um novo bloqueio a toda a navegação dirigida a portos iranianos. Mas será que a guerra recomeçou mesmo ou estamos apenas perante um solavanco, mais um, num cessar-fogo que deveria permitir verdadeiras negociações de paz? É isso que vamos tentar perceber no Contracorrente de hoje. José Manuel, olhando para o que está a acontecer, não há dúvidas de que estamos mesmo perante uma guerra séria?

Eu diria que sim. Há um período na Segunda Guerra Mundial, entre a invasão da Polônia e a invasão da França, que os franceses costumam chamar de "drôle de guerre", que foi declarada a guerra à Alemanha depois da invasão da Polônia, e não aconteceu nada na frente ocidental até praticamente durante um ano. Entre setembro de 39 e junho de 40, quando foi a Blitzkrieg.

Os exércitos alemães chegaram rapidamente a Paris e expulsaram os ingleses por Dunquerque. Não sei se é isso que estamos a viver, um período de intervalo, de pousio, não creio que seja uma situação dessas. Vamos lá ver. Isto desde o princípio, que se percebia, que se discutiu, até que ponto é que o MOU, Memorandum of Understanding, Memorando de Entendimento, nós também tivemos um com o FMI.

Até que ponto é que o memorando iria funcionar ou não iria funcionar, porque tinha muitos pontos difíceis de perceber até onde se poderia ir. E desde o início, que havia claramente uma agenda muito contraditória e difícil de ultrapassar. Por que era contraditória? Porque a agenda dos Estados Unidos, e de alguma forma também de Israel, e eu diria que devia ser também a da comunidade internacional, é: o Irão não pode ter a arma nuclear. E, portanto, qualquer coisa que saia de um acordo definitivo, e não apenas de um cessar-fogo de longa duração, tem que passar por uma solução que elimine o risco de o Irão alcançar a arma nuclear, com muitos pontos difíceis no entretanto, designadamente o que se iria fazer ou não com o urânio enriquecido, que está enterrado debaixo daquelas montanhas depois dos bombardeamentos do ano passado, e esses temas todos. Isso era a agenda dos Estados Unidos. A agenda do Irão era, de alguma forma, assegurar que mantinha algum controle sobre o Estreito de Ormuz. Descobriu que isso podia ser uma arma muito importante e que mantinha esse controle para o futuro. Estas duas coisas dificilmente são compagináveis. E também se percebeu desde o início que, por um lado, nunca a administração americana poderia aceitar um acordo definitivo pior do que o acordo assinado por Obama sobre a questão nuclear no final de 2013, 2014. Esse acordo tinha sido abandonado por Donald Trump e, por outro lado, o Irão queria prolongar o seu domínio sobre a única carta no baralho que ele tinha, que é o Estreito de Ormuz. Isto evoluiu um pouco desde essa altura para cá, porque, entre outras coisas, há uma coisa que nós percebemos com esta guerra e estamos a perceber com este cessar-fogo. É que o Estreito de Ormuz, em tempos de paz, passa por lá 20% do petróleo, dos hidrocarbonetos de que o mundo necessita, mas apenas 20%, apesar de tudo. É uma diferença importante quando foram as anteriores crises petrolíferas, a dependência do mundo do Golfo Pérsico, que era maior do que é hoje, o principal país onde essa diferença é significativa são os próprios Estados Unidos, mas na Europa também é diferente. A dependência ali é sobretudo para a Ásia, mas a Ásia neste momento é o motor econômico do mundo. O que começou a acontecer neste período, e às vezes fala-se pouco disso, é que está a haver um enorme esforço, que em alguns casos já com efeitos práticos, noutros casos levará tempo até chegar lá, para evitar o Estreito de Ormuz, através da capacidade de fazer sair os hidrocarbonetos do Golfo Pérsico, e não só, porque uma parte deles também vem do Iraque lá para cima, para a zona dos curdos. Aliás, o petróleo iraquiano do nosso Club Ingen era dessa região.

Fazê-lo sair através de oleodutos ou gasodutos. Já existiam alguns, estão a ser duplicados rapidamente e a perspetiva, tem-se falado pouco disso, é que num prazo que pode ser de relativamente pouco tempo, porque o investimento é brutal e muito rápido, podemos estar falando um ano apenas, por exemplo, um ano e meio, dois anos Os 20% que saíam por ali possam ficar reduzidos a 10%, de dependência do que sai dali em contentores. Não é contentores, é petroleiros.

Petroleiros ou navios de transporte de gás liquefeito.

Exato. São canalizados, mas saem para vários sítios. Saem para um lado pelo Mar Vermelho, porque a Arábia Saudita liga ao Mar Vermelho, saem para o outro lado pelo Golfo de Omã. A capacidade que o Irão teria de perturbar aquela linha ficaria reduzida à metade e a dependência mundial relativamente àquele abastecimento ficaria reduzida à metade. Sendo que, além disso, há outro fator, que às vezes se fala menos, é que há capacidade de produção de petróleo e de gás noutras regiões do mundo, que pode aumentar.

Aliás, as explorações nos Estados Unidos de xisto e gás que só se tornam rentáveis quando o preço atinge determinado patamar e aquilo põe-se a funcionar muito rapidamente.

Há os Estados Unidos, mas há mais sítios. A Venezuela, que voltou ao circuito, se bem que o petróleo da Venezuela é muito, mas diferente do petróleo do Medio Oriente, é mais pesado.

Exige uma refinação diferente. Há outras regiões, a Nigéria, Angola, a Rússia. Repare que toda a Rússia está um bocado tirada do circuito e também são reservas gigantescas. Há uma parte das reservas também importantes que tinham sido, por assim dizer, um bocadinho descontinuadas, que é o Mar do Norte. Descontinuada no sentido em que a Europa não estava muito interessada naquilo. O Brasil também ganha com isso. Há muitos interesses aqui contraditórios e conflituantes. A alavancagem que o Irão tem sobre o Estreito de Ormuz é muito grande hoje, mas tende a ser menor no futuro. E o tempo que o Irão tem pra tirar partido dessa alavancagem é limitado. Por isso é um jogo de tempo. E eu acho que neste momento os tempos é um jogo de tempo e saber quem aguenta mais tempo.

Sendo que a aposta do Irão é subir a parada, porque, como dizem os americanos, Trump chickens first, isto é, ele cede primeiro e como tem o horizonte das eleições de novembro, tem que fazer qualquer coisa até as eleições de novembro, senão o desastre pode ser tremendo. A estratégia do Irão é fazer aumentar isso. A estratégia dos Estados Unidos é tentar aumentar a pressão até um ponto que o Irão também tenha que ceder, eles têm que, de alguma forma, aceitar uma solução diferente. E isso, neste momento, é muito mais do que por pressão militar. Claramente, também há pressão militar, mas também por pressão econômica. Sendo que, e aqui ainda há outro aspecto que também me parece importante referir, aquilo que aconteceu em termos de navegação nos últimos tempos é um bocadinho diferente daquilo que nós temos ideia. Isto é, neste período de cessar-fogo, houve algum retomar do tráfego no Estreito de Ormuz, mas não exatamente o tráfego que havia antes. Por quê? Porque como muitas companhias de navegação não queriam arriscar, apesar daquilo que estava em cima da mesa, e repare, o que os Estados Unidos fizeram foi tentar assegurar a desminagem e a limpeza do canal sul. O canal sul é o canal de Omã, que fica na margem sul do Estreito de Ormuz. O canal norte é o canal próximo do Irão e aquele que o Irão consegue controlar melhor. E por esse canal sul, que é aquele que o Irão não quer que seja usado, e uma parte desta guerra também tem a ver com isso, estavam a passar um tipo de petroleiros novos, que são petroleiros de transbordo. O que eu quero dizer com isto? Como são petroleiros que carregam dentro do Golfo e descarregam no Golfo de Omã para outros petroleiros das tais companhias que não querem correr o risco do Estreito de Ormuz. E destes três petroleiros atingidos, dois são petroleiros desses. Há um terceiro, mas que já foi atingido numa zona tão longínqua do estreito que nem sei bem que significado tem aquilo. Isto pode ser significativo. Temos que tentar perceber como é que isto vai evoluir, sendo que aqui há também um enorme ponto de interrogação, pelo menos na minha perspectiva, que é: nós temos sido muito apocalípticos nas consequências econômicas das crises do Golfo, muito por memória das crises anteriores. E a verdade é que, mesmo quando aquilo esteve completamente bloqueado, nunca o petróleo chegou aos valores que dizia que iam chegar, nem a economia tremeu como se ia tremer. Evidente que, e por exemplo, só pra dar uma ideia, supostamente nesta altura não devíamos estar com aviões no ar porque o jet fuel estava a esgotar-se na Europa.

O verão ia ser muito difícil, que não há sinais de já ser.

Claro que o preço é mais elevado, claro que os preços são mais elevados. Isto não regressou nunca aos preços que estavam antes da guerra, não regressou. Mas há também gente, há também países, há também interesses que gostariam que o preço ficasse um pouco mais elevado. Paradoxalmente, países com interesses muito diferentes: a Rússia, que tem muito a ganhar, os Estados Unidos Como a Helena falou há pouco, o xisto gas é um exemplo disso, mas mesmo o próprio petróleo brasileiro é importante quando o preço está mais elevado. O mesmo se passa com uma parte do petróleo offshore de Angola, que são petróleos mais caros de extrair do que o petróleo do Golfo.

Desculpe interromper. Embora nós, neste momento, talvez devêssemos olhar mais para os produtos refinados do que propriamente para o petróleo.

Sim, porque aí até as margens de refinação estão a aumentar.

É natural que a margem esteja a aumentar, porque é isso que está a escassear. O que se passou? Aliás, nestes programas, até houve uma outra vez que o Nuno Ribeiro da Silva chamou a atenção que os europeus não quiseram ter refinarias aqui, há ali refinarias, e o que se está a passar é que há refinarias do Golfo que foram atacadas, digamos assim, e isso tem feito com que o efeito no petróleo não seja tão significativo pelas razões que identificaste, mas em contrapartida, os efeitos sobre os produtos refinados está a ser muito mais significativo, o gasóleo aparentemente é o caso mais grave, mas depois também o jet fuel. E quando se olha, e esta semana a Agência Internacional da Energia fez um relatório sobre isso, e a The Economist também tem um artigo muito interessante sobre esses efeitos, a redução da capacidade produtiva aqui tem um impacto que pode ser muito mais duradouro, até porque nem se percebe muito bem quais são os danos efetivos nas empresas, nas fábricas de refinação ali da zona do Golfo. A maior parte das pessoas não consegue perceber: "Então, mas o petróleo não aumentou assim tanto ou até desceu, e nós estamos a pagar a gasolina mais cara e o gasóleo mais caro." Não tem a ver com o preço do petróleo, tem a ver com uma questão de escassez que está a levar a tais margens.

E provavelmente ainda deve haver outra questão, que é: com petróleo de tipo diferente, nem todas as refinarias estão preparadas