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O Marco Neves desfaz mitos políticos sobre as cores, explica por que não há atletas "sobressalentes" e viaja até ao Brasil para revelar as diferenças entre o calão e o "baixo calão".

Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.

Já sabe que à quarta-feira nunca fica sozinho, o "Português Suave" também está cá. Comigo, João Costa e Silva, e sempre com o Marco Neves. Olá, Ninja.

Olá, tudo bem? Cá estamos nós. Eu tenho que te arranjar um nome também. Tu chamas-me Ninja, tenho que arranjar um nome pra te chamar. Vou pensar. Não sei.

Vamos às dúvidas. Eu recebi aqui dois comentários ou duas dúvidas do João Pires da Cruz, que nos ouve e escreve no "Observador". Ele mandou-me mensagem a sugerir que eu falasse da diferença entre vermelho e encarnado, que também já foi aqui referida, mas vou falar de novo, e também entre suplente e sub-excelente, que é uma boa pergunta, até porque nós falamos agora durante o Mundial muitas vezes de jogadores suplentes. Será que podíamos falar de jogadores sub-excelentes?

É um pouquinho estranho, exatamente. Aqui entre o vermelho e o encarnado, nós temos uma daquelas diferenças. Já vamos ao sub-excelente. Vermelho e encarnado são dois termos que nós usamos pra mesma cor, embora há pessoas que apliquem para tons diferentes, mas isso é algo muito pessoal. Nos dicionários e no uso mais habitual da língua, referem-se a um conjunto de tons alargado. Tanto vermelho como encarnado são duas palavras que podem ser usadas. Primeiro, estes nomes de cores vinham de uma nuvem de palavras que existiu ao longo da língua e nas línguas aqui próximas. Por exemplo, os espanhóis também têm "bermejo" e também têm "rojo", que é o que usam hoje. Os catalães também têm vermell, mas também têm roig. Havia sempre várias palavras nas várias línguas latinas, e estou só a falar aqui de algumas das línguas próximas, que depois se foram estabilizando num só termo para cada uma das línguas. E os falantes de castelhano escolheram claramente o rojo, os catalães o vermell e nós temos vermelho e encarnado. Somos uma exceção neste caso, porque ficamos com duas palavras. Depois também há o carmim. Também tivemos o roxo como nome da cor vermelha, depois foi deslocado para outra cor, como temos hoje. Tudo isto pra dizer que aqui a diferença entre vermelho e encarnado é muito de frequência. O vermelho é a palavra mais frequente em todo o território, mas encarnado também é bastante usado, principalmente na zona de Lisboa, de algumas partes do Alentejo e do litoral, mas aqui tudo concentrado em Lisboa. E há a velha questão de ter também uma conotação social particular. Algumas famílias gostam muito mais de encarnado, ou seja, da palavra, muitas outras mais de vermelho. Houve também diferenças de utilização, por exemplo, com conotações desportivas e políticas. É sabido, e muitas pessoas contam que no Estado Novo, vermelho tinha uma conotação política relacionada com o Partido Comunista e por isso evitava-se, por exemplo, dizer vermelho quando se falava do Benfica, dizia-se encarnado. São histórias antigas. Há que dizer que há um mito, que nós também já aqui referimos, que afirmava que foi o próprio Salazar criar a cor encarnada, o nome encarnado, mas não, é mentira, a cor já existia, o nome já existia. Eu estou a falar do nome. Foi simplesmente uma preferência para ter menos conotações de cariz político. Quanto ao suplente e sub-excelente, vamos avançar. Neste caso, há uma utilização diferente, porque sub-excelente utilizamos apenas com objetos, como o pneu.

Exato, era o que eu estava a pensar, mais para os automóveis, neste caso, que é aquilo que eu associo mais.

Exatamente. Nós, em geral, não falamos do jogador sub-excelente, falamos do jogador suplente. Com pessoas, é sempre suplente. Com objetos, é sub-excelente, mas também é possível usar suplente com objetos. A palavra suplente é mais abrangente, enquanto que sub-excelente é só pra objetos.

Marco Neves, e agora vou fazer aqui uma pergunta que pode ser parva ou estúpida até. Imaginemos que, por exemplo, agora no Mundial, os relatadores, comentadores, começavam a dizer jogador sub-excelente. Imaginemos que isto se tornava uma norma. Podíamos estar aqui a falar de um daqueles casos que falamos muitas vezes aqui no programa, em que é o povo a ditar a ordem das coisas?

É assim, neste caso, seria uma alteração promovida pelos jornalistas que poderia ou não pegar fogo, usando um termo mais brasileiro, entre a população. Poderia acontecer e já aconteceu. Os próprios jornalistas começavam a dizer pontapé de canto em vez de dizer corner e as pessoas pegaram nesta utilização e começaram a usar. Não seria impossível que sub-excelente ganhasse um novo sentido, mais genérico, e não seria nem a primeira vez, nem sequer é raro. As palavras, de fato, mudam de sentido e mudam de utilização ao longo do tempo. Isso poderia acontecer. Eu não estou a aconselhar que aconteça. Atenção, se pensam que eu lá por estar a dizer que isso poderia acontecer, não estou a dizer para que aconteça. Nem sequer seria uma coisa que eu logo nos primeiros tempos iria aceitar. Estas alterações é um pouco como ir à guerra, têm de ir à guerra. As novas expressões, os novos sentidos, começam nalgum lado, sempre, depois começam a se espalhar. E quando eu digo que têm de ir à guerra, quer dizer que as pessoas podem reagir e muitas vezes reagem, faz parte do processo tentar recusar algumas das alterações. Depois, se a expressão ganhar essa guerra, se perante a resistência que vai sempre haver, a expressão continuar, faz parte da língua. A língua também tem algo de guerra, ou de negociação, se quisermos usar outra imagem. Não é uma questão só de alguém inventou uma nova utilização, vamos todos a correr. Não é nada disso. As pessoas que começam a usar palavras de maneira diferente da maneira como eram usadas antes, há todos os dias, a todas as horas. Só algumas destas mudanças é que depois, de fato, ficam. E nós reparamos nessas que ficam, mas essas são as que ganharam estas pequenas guerras que vão acontecendo ao longo do tempo.

E negociações que levem sempre à paz. Não queremos nada aqui.

Exatamente. Isto é tudo uma imagem, não estou aqui a dizer para os falantes irem pra rua chegar a vias de fato, uma expressão também muito interessante.

Marco Neves, ficamos agora com pouco tempo. Temos cerca de três, quatro minutos.

Vamos só ouvir então o som que temos, que já não lembro do nome da pessoa, mas vamos ouvir, que ela diz o nome durante a gravação.

Olá, Marco e João, me chamo Maicon Estrei, falo da cidade de Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, Brasil. No programa sobre futebol, da origem da palavra futebol, o Marco usou a expressão calão. Achei curioso porque no Brasil é difícil ouvir calão sozinho. A gente geralmente fala baixo calão pra se referenciar a palavras que são proibidas falar em público, algo assim, que não são muito boas de ser ditas. Então eu queria entender qual é a diferença, o que é o calão mesmo e por que no Brasil só se usa sempre baixo calão? Obrigado.

Maicon? Olha, não sei. Fica a pergunta para o próximo episódio. Há que dizer que o Rio Grande do Sul é um estado muito interessante linguisticamente e talvez falemos dele. Até gostava de ter uma daquelas viagens, mas pra responder rapidamente, baixo calão, na verdade, é um daqueles pleonasmos que ficaram no Brasil, neste caso, em Portugal, não. É como dizer pequeno pormenor. Pormenor já é pequeno. O calão, na verdade, é sempre um tipo de linguagem considerado baixo socialmente, portanto, baixo calão. Há aqui uma ênfase que depois se cristalizou no Brasil, mas em Portugal, não. Querem dizer precisamente a mesma coisa. Eu dizer calão ou um brasileiro dizer baixo calão, é a mesma coisa. São palavras que são evitadas em certas situações. Não são necessariamente palavrões, mas são palavras que são consideradas menos próprias em determinados contextos. E fica aqui o agradecimento por nos estarem a ouvir do Rio Grande do Sul.

É verdade. Ao Maicon ou Michael, se calhar os dois.

Fica a pergunta, qual é o nome, que nós não conseguimos ouvir bem. Fica a pergunta qual é o nome, porque nós gostávamos de dizer o nome bem. Para o próximo episódio, fica o desafio.

E fica aqui um abraço e pronto, por hoje é tudo. Nós teremos mais dúvidas pra semana