É dos anos 1960 a expressão preconceituosa, generalista e infeliz que chamava todos os asiáticos de japoneses. Todos iguais. E fracos de futebol.
Como eles eram, de fato, sem muita noção além de correr com a bola. Até quando o jogo passou a virar em 1993, quando a J-League entrou em campo, profissionalizando de vez a torneio e os clubes, e trazendo talentos de várias posições e idades. Um ano antes, com a chegada do Samurai de Quintino, o Japão passou a saber o que fazer com o jogo, guiado pelo exemplo e paixão de Zico. Dentro e fora de campo.
Como em outros campos de atividade, os japoneses mostraram que poucos são iguais a eles: estudaram, emularam, criaram, e foram adaptando soluções, e se adaptando ao futebol. Até demorou mais do que o esperado para o nível atual. O de melhor seleção de todos os tempos no país. Apenas três dos 26 jogam no país. Nagamoto, um deles, 39 anos, o mais velho, jogou por bom tempo em bom nível na Europa.
Desde 1998 estão em todas as Copas (e não só pelo aumento de países na etapa final). Metade delas passaram da fase de grupos. Nas duas últimas jogaram cada vez melhor. Em 2022, ganharam dos campeões de 2010 e 2014. Como o Brasil, só pararam no Catar nos pênaltis diante da Croácia, nas oitavas, depois de terem dominado o adversário em 120 minutos.
Neste ciclo, golearam por 4x1 a Alemanha, em Wolfsburg, em 2023. Viraram em 20 minutos uma derrota de 2x0 para o Brasil de Ancelotti, em outubro passado. Paulo Henrique e Martinelli fizeram dois belos gols em 31 minutos. Até Fabrício Bruno fazer bobagem e dar a Minamino o primeiro gol. Ele também não conseguiu evitar o empate com Nakamura.
E não subiu como todos na cabeçada de Ueda, que Hugo Souza aceitou. Foi a primeira vez que a seleção principal nos venceu - há 30 anos, uma Sub-23, na Olimpíada de Atlanta, ganhou por 1x0 do Brasil de Zagallo. Neste ciclo virtuoso e vitorioso, ganharam também da Inglaterra, em Wembley, há três meses, por 1x0.
Em março de 2025, os Samurais Azuis já estavam classificados para a Copa, com três rodadas de antecedência nas Eliminatórias asiáticas. Fora os três mandantes, os primeiros dos 45 que carimbaram passaporte e visto.
Dá a impressão que estava tudo planejado. E está, como parece que tudo no Japão é. A federação nacional pretende ser campeã do mundo até 2050.
Tem tempo até lá, tem chão, e tem futebol também para sonhar. Ou planejar.
Se ainda defensivamente a equipe falha no jogo aéreo, embora já tenha jogadores mais altos do que a média, com a bola no chão, fazem bonito. Como foi o gol contra a Suécia. Muitos deslocamentos, inteligência e vontade de atacar no 3-4-2-1 do seu treinador.
Fato que perdeu jogadores muito importantes, como os meias Miniamino (Monaco), Mitoma (Brighton) e Kubo, com joelho torcido, durante a competição. Mas, mesmo assim, o treinador Moryasu passou um dos alas ofensivos (que são mais meias criativos adaptados a laterais), como Doan, ponta bastante hábil e driblador, para ser o articulador pela direita. Se Kubo não pode jogar, atua Maeda, de qualidade também, com o artilheiro Ueda lá na frente.
O técnico Hajime Moryasu, 57, volante de seleção japonesa, grande trabalho na seleção desde 2018, diz que o grande “segredo”, que é conhecido do japonês, não é necessariamente “a organização, como se fala sempre, mas todos os atletas trabalhando para o bem do time. O que é normal em outras áreas de atividade do Japão. Mas, na seleção, também melhoramos e amadurecemos porque as individualidades floresceram, e elas podem fazer a diferença no futebol, no um contra um, como antigamente não faziam. Os jogadores no Japão também aprenderam a atuar para eles mesmos, mas seguem tendo a consciência de um sentido coletivo e cultural de sempre ajudar os outros, e isso nos ajuda dentro de campo. Em 2022, no Catar, 19 daqueles 26 jogadores estavam estreando em Copas. Isso pesou. Agora não será o caso. É diferente, o time está mais maduro”, diz o treinador.
Hajime Moryasu tem também um plano B. O 3-4-2-1 que tem usado agora era uma alternativa usada para as viradas e vitórias contra a Alemanha e Espanha, em 2022, e acabou solidificando como sistema preferencial. Na outra virada contra o Brasil, em 2025, o esquema havia sido mudado para uma linha de quatro defensiva quando viraram o placar. Essa capacidade de alterar o ritmo e o rumo de jogo que faz com que o Japão seja diferente. O melhor de todos os tempos.
Como seu jovem é ótimo goleiro Zion Suzuki, filho de pai ganês com mãe japonesa, nasceu em Newark, onde vai ser a final da Copa, e desde os três anos mora no Japão. Ótimo tempo de reação, trabalha bem com os pés, absoluto no Parma desde 2024.
O restante da equipe tem gente experiente, qualificada, como o zagueiro central da linha de três, Itakura, de 29 anos do Ajax, 1m89, que há 10 anos atua, e bem, na Europa, já tendo jogado (pouco) pelo Manchester City. Foi volante e tem bom passe para sair jogando. Pode ter pelo lado esquerdo da zaga Hiroki Ito, também alto, 1m88, 27 anos, que só não joga mais vezes porque está no Bayern de Munique. Na temporada, ainda assim, em 2026, jogou 23 vezes.
Do lado direito da linha de três, foram três atletas diferentes no Mundial: no 2x2 com a Holanda começou jogando Watanabe, 29, Feyenoord, há quatro anos na Europa. Melhor atleta do Gent em 24-25, é muito forte e se impõe no jogo aéreo nas duas áreas. Deve ser o titular. No 4x0 na Tunísia, Tomyasu foi o titular. Há oito anos na Europa, jogou no Bologna, Arsenal e Milan. Hoje, no Ajax, ainda se recuperando de problemas no joelho. O mais versátil da zaga, pode atuar também de lateral, e tem a melhor bola longa do elenco. Esteve no Catar. No 1x1 com a Suécia, Seko foi a opção. Le Havre, 26, outro versátil para atuar em qualquer função. Tem bom passe.
Pela ala direita, outro que atua na Alemanha, no Werder Bremen, é Sugawara, que está desde 2019 na Europa, veio e irá voltar emprestado pelo Southampton. Cruza muito bem e também chuta com perigo de fora da área. Tem muito vigor e pode marcar sem problemas como lateral numa linha de quatro. Só não é mais talentoso que o ala esquerdo Nakamura (Stade de Reims), um dos melhores da competição, que gol fez contra a Holanda, e também contra o Brasil. Arrisca bem de fora da área, e é extremamente ofensivo. Aberto ou cortando por dentro e dando chutes de qualquer lado em uma equipe que finaliza bastante de fora da área. Nakamura é quem mais dá passes decisivos na equipe, quem mais acerta dribles. Tormento para Danilo Luiz, e que precisa ser vigiado por Rayan.
No meio-campo, uma dupla de volantes eficiente com Tanaka, de 23 jogos na temporada, de janeiro para cá, que atua no Leeds desde 2024. É quem melhor desarma nesta Copa pelo Japão, e que fez gol na Espanha, na Copa passada; Sano foi titular como volante pela direita nos dois primeiros jogos. Desde 2024 no Mainz, é outro que marca mais do que joga, e mais fez interceptações na equipe. O mais qualificado entre os volantes é do Crystal Palace, Kamada, outro que jogou no Mundial passado, e dos que mais jogaram na temporada, 26 jogos, e vai muito bem marcando e armando. A cabeça pensante da equipe, tem tudo para ser um grande treinador. Com 29 anos, há 9 atua na Europa. Contra a Tunísia, foi o armador mais avançado pela esquerda.
Doan, meia pela direita, pelas ausências, era o ala direito antes da lesão de Kubo (o “Messi” japonês, que cresceu em La Masia, atuou pelo Real Madrid, e está na Real Sociedad). Baixinho, mas forte, Doan é um canhoto habilidoso, toca com talento e veneno, gosta do drible, e foi o cara que entrou e revolucionou os jogos contra Espanha e Alemanha, no Catar. Vem atuando e bem pelo Eintracht Frankfurt.
Armador pela esquerda deve ser Maeda, 28, no Celtic desde 2021. Ajuda no pressing na saída de bola rival, uma das boas características desse time. Ídolo na Escócia, tem a versão da canção “Tequila”, do The Champs, só para ele. Apreciem com moderação. É quem mais corre e que dá mais sprints na equipe. Só não é mais veloz quE Junya Ito. Maeda costuma comemorar os gols levando os punhos às bochechas, imitando o super-herói japonês do mangá Anpanman, que tem duas maçãs rosadas no rosto. Fez um gol na Copa de 2022