Roubaram meu carro no final do ano retrasado. Junto, os bandidos levaram alguns livros que estavam no banco traseiro, dentre eles "Messi es un Perro y Otros Cuentos", do argentino Hernán Casciari (Orsai). Agora, um ano e meio depois da perda e com a Copa rolando, sinto realmente falta daquele exemplar.
O texto principal, que dá nome à obra, é o meu favorito de Casciari. É uma elegia ao Messi dos tempos de Barcelona, uma oportuna comparação entre o magnetismo do craque com a bola e a inabalável vontade de brincar de um antigo cachorro do autor.
Sim, Messi es un perro. É um texto fácil de achar por aí. Há bons clipes no youtube que mesclam a narração da crônica - é mais uma longa crônica do que um conto - com imagens da genialidade de Messi. Mas a leitura num livro é especial.
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Outro dia escrevi sobre como é preguiçoso o papo de que falta ao Brasil boa literatura sobre futebol. Podemos não estar soterrados por excelentes livros nessa linha, no entanto temos sim uma gama de publicações que merecem atenção. Também temos bons achados quando olhamos para autores estrangeiros.
Tem gente que resmunga quando o óbvio não é logo dito, como se tivéssemos a obrigação de sempre repetir certos títulos acompanhados de determinados chavões quando tocamos num assunto, então tico logo Eduardo Galeando. "Futebol ao Sol e à Sombra" (L&PM, tradução de Eric Nepomuceno e Maria do Carmo Brito) é poético e incisivo, um passeio por quase toda a história do esporte pela perspectiva do uruguaio que se dizia mendigo da beleza do jogo.
Outro que não pode faltar é "Febre de Bola", de Nick Hornby (Companhia das Letras, tradução de Christian Schwartz), relato pessoal no qual o futebol - a paixão pelo Arsenal, sobretudo - aparece como chave para o processo de amadurecimento de um jovem. É um livro com jeitão de cadeira cativa, não de arquibancada. Quando li, na adolescência, não me tocou muito, talvez porque vivesse uma fase muito mais "Entre os Vândalos" (Bill Buford, Companhia das Letras, tradução de Júlio Fischer), uma das não ficções da minha vida.
Como o que mais devo são leituras, também tenho alguns títulos estrangeiros aqui nas pilhas de livros que merecem a minha atenção. A vista alcança três: o relato de viagens "11 Cidades", do espanhol Axel Torres (Grande Área, tradução de Thiago Arantes), "Libertadores da América", do argentino Alejandro Droznes (Pinard, tradução de Luis Reyes Gil), e "Elogio do Maracanazo", do chilenoVíctor Hugo Ortega C. (Dolores, tradução de Rebeca Lisita e César Zárate).
Por falar em chilenos, gosto de como dois grandes escritores do país de Salas e Zamorano lembraram de torcedores em seus escritos. Pedro Lemebel dedica parágrafos aos barra bravas em alguns momentos de "Poco Hombre" (Zahar, tradução de Mariana Sanchez). Roberto Bolaño, por sua vez, constrói num dos contos de "A Literatura Nazista na América" (Companhia das Letras, tradução de Rosa Freire D'Aguiar) um tipo que remete a um mítico brucutu que comandava a torcida do Boca.
Não que Bolaño e Lemebel sejam autores que mergulharam no futebol, não é isso. Muito mais a fundo vão o argentino Eduardo Sacheri com "Esperándolo a Tito" (Alfaguara) e Juan Villoro. Seria, aí sim, uma heresia fazer uma coluna destas sem mencionar o trabalho do escritor mexicano.
Villoro é visto há décadas como uma referência no bom manejo das letras na hora de abordar o que acontece em campo e nos seus arredores. O escritor sabe que "as arquibancadas vazias são mausóleos sem glória", que a felicidade de muitos torcedores se "alimenta de pretextos, não de realidades", que uma partida épica pode servir de presságio para o apocalipse e que "a autêntica meta do futebol não são os troféus, mas o céu".
São iluminações que pesco e arrisco traduzir de "Los Héroes Numerados", bom livro publicado pela Seix Barral no início deste ano. Villoro, como outros grandes autores, olha para o jogo e amplia o horizonte histórico, banca os dramas, valoriza ironias e contradições, apresenta ideias originais e acrescenta camadas de complexidade ao mundo da bola.
É um alívio encontrar nos livros a perspicácia que o futebol merece, buscando seu caráter épico, não comezinho. Um jeito de tratar do assunto muito diferente dessa mediocridade cotidiana e suas gritarias performáticas, falsas polêmicas e uma insistência em reducionismos e comparações que evidenciam a incapacidade de muita gente admirar Messi, Pelé, Mbapé, Garrincha, Ronaldos e afins sem insistir em rinhas. Estamos cheios de marmanjos (essa coisa tosca é sobretudo masculina) que parecem só conseguir se comunicar por meio do atrito e da picuinha.
Para ser justo, temos sim alguns bons nomes capazes de oferecer olhares argutos para o esporte: Rogério Arantes (da ótima newsletter Aquele Gol que Escrevi), Paulo Junior, Matias Pinto, Leandro Iamin, o mestre Tostão… Mas são exceções que precisam ser garimpadas no meio do lodaçal de insignificâncias e estridências.
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