O futebol feminino vive um dos períodos mais expressivos de sua história, com visibilidade, audiência e receita crescentes. Essa virada se prova também nos números do mercado de transferências, cada vez mais milionário: as dez contratações mais caras da modalidade aconteceram entre 2025 e 2026.

No ano passado, o recorde de transferência mais cara entre as mulheres foi batido quatro vezes, com Naomi Girma, Olivia Smith, Lizbeth Ovalle e Grace Geyoro.

Atualmente, o posto de mulher mais cara do futebol é de Geyoro, vendida do PSG, da França, para o London City Lionesses, da Inglaterra, por 1,43 milhão de libras (R$ 10,07 milhões, em valores atualizados).

Embora a marca não tenha sido batida este ano, a escalada continua: por 1,5 milhão de euros cada (cerca de R$ 9,05 milhões), a atacante sueca Felicia Schröder foi do BK Häcken, da Suécia, ao Real Madrid, e a ponta brasileira Kerolin foi do Manchester City ao Barcelona. Agora, ambas dividem a segunda posição entre as contratações mais caras.

Segundo relatório da Fifa, em 2025 foram registradas 2.440 transferências internacionais de jogadoras, uma alta de 6,3% em relação a 2024. O gasto total foi de 28,6 milhões de dólares (R$ 147,6 milhões), 83,6% acima do ano anterior.

A movimentação milionária nas últimas janelas de transferências é o sintoma mais visível de uma transformação profunda no ecossistema esportivo.

"Não se vê mais como só uma oportunidade futura, mas como um produto esportivo sólido. Gera valor para atletas, patrocinadores vendo como produto de engajamento, e não só como inclusão", avalia Ebru Semizer, diretora de marketing da Hyundai, patrocinadora histórica da modalidade.

O crescimento de audiência nas transmissões e de público nos estádios - em algumas ligas, constantemente lotados - provam que há demanda real e engajamento. Para as empresas, isso se traduz em retorno comercial concreto e atração de novos parceiros que antes viam o esporte como um ativo de risco.

Além disso, a disparada no preço das transferências reflete um movimento em que as jogadoras viram ativo estratégico da instituição, uma lógica comercial há muito tempo estabelecida no futebol masculino e que agora se consolida entre as mulheres.

"Estamos vivenciando um processo de consolidação de um mercado que, durante décadas, recebeu investimentos limitados e pouca visibilidade", diz Renata Armiliato, gerente executiva de futebol feminino do Internacional.

Apesar da disparada nos investimentos e da proximidade de grandes eventos — como a Copa do Mundo no Brasil —, as especialistas concordam que a modalidade vivencia um processo de consolidação, e não um teto. "O próximo passo para o desenvolvimento sustentável da modalidade será ampliar sua autonomia financeira, fortalecendo receitas próprias por meio de patrocínios, direitos de transmissão, bilheteria e ações voltadas ao engajamento dos torcedores", conclui.

Para além dos recordes das transferências em 2025, o movimento manteve a força no começo de 2026: pela primeira vez na história, os clubes gastaram mais de 10 milhões de dólares (R$ 51,6 milhões) em transferências só na janela de janeiro, segundo a Fifa, com um aumento de 85% em relação ao mesmo período de 2025. Mais que os valores de vendas de atletas, algumas das ligas mais fortes já registram também o aumento de receita.

Estudo da Deloitte publicado em julho apontou que a Women's Super League, a liga inglesa da modalidade, registrou uma receita de 90 milhões de libras (R$ 633,7 milhões) de receita em 2024/25, uma alta de 39% em relação à temporada anterior. Segundo a pesquisa, as receitas de bilheteria subiram 16% na liga inglesa e de transmissão, 11%.

Nos Estados Unidos, o valor médio de um time da liga é de 184 milhões de dólares (R$ 949,79 milhões), segundo a Sportico, o que representa um aumento de 77% sobre o registro em setembro de 2024 e 179% em relação a 2023. As 14 equipes que atuaram na competição em 2025, somadas, chegam a 2,6 bilhões de dólares (R$ 13,42 bilhões).

Um relatório de 2025 da Nielsen Sports aponta que a base de fãs do futebol feminino pelo mundo crescerá 38% até 2030, alcançando 800 milhões de pessoas. O estudo também mostra que os patrocínios da Copa de 2023 triplicaram em relação à edição anterior, em 2019.

"Os patrocinadores estão mais comprometidos com o longo prazo. Ainda sabemos que há muito espaço para evoluir, avançar em infraestrutura, categorias de base, calendário. Mas sinto nos últimos anos uma diferença muito grande", afirmou Semizer.

2025 - Grace Geyoro (FRA): PSG (França) ao London City Lionesses (Inglaterra) - 1,43 milhão de libras (cerca de R$ 10,07 milhões)

2026 - Felicia Schröder (SUE): BK Häcken (Suécia) ao Real Madrid (Espanha) - 1,5 milhão de euros (cerca de R$ 9,05 milhões)

2026 - Kerolin (BRA): Manchester City (Inglaterra) ao Barcelona (Espanha) - 1,5 milhão de euros (cerca de R$ 9,05 milhões)

2025 - Alyssa Thompson (EUA): Angel City (EUA) ao Chelsea (Inglaterra) - 1,1 milhão de libras (cerca de R$ 7,74 milhões)