Mais um vexame do futebol masculino. Mais uma Copa do Mundo que foi para o vinagre. A expressão “foi pro vinagre” é uma gíria popular que significa que algo deu muito errado, quebrou, estragou, faliu ou deixou de existir. É o equivalente a dizer que uma situação “foi por água abaixo” ou “danou-se”.
Por que esse tema merece atenção dos nossos leitores? Porque o futebol é muito mais do que um esporte. Poucas manifestações culturais conseguem mobilizar emoções, construir pertencimento e produzir memória coletiva com a intensidade que ele alcança. No Brasil, sua história se confunde com a própria formação da identidade nacional. Durante mais de um século, o futebol ensinou o país a celebrar vitórias, elaborar derrotas e reconhecer em campo parte de sua diversidade social e cultural.
O futebol do século XXI passou a viver uma evidente contradição. De um lado, continua sendo patrimônio cultural imaterial do povo brasileiro; de outro, transformou-se em uma das atividades econômicas mais lucrativas do planeta.
O jogo continua despertando paixões, mas passou também a movimentar bilhões de dólares em direitos de transmissão, publicidade, transferências internacionais de atletas, fundos de investimento e, mais recentemente, pelas gigantescas corporações de apostas esportivas.
A força do futebol brasileiro não reside apenas nos estádios lotados ou nos títulos conquistados. Ela está presente nas ruas, nos campos de terra, nas praias, nas escolas e nas lembranças afetivas de sucessivas gerações. Trata-se de uma prática social incorporada ao cotidiano, transmitida de pais para filhos e recriada permanentemente pela criatividade popular.
Quantas tardes e noites vivi no Majestoso ao lado dos meus filhos e do meu sobrinho, comemorando vitórias, sofrendo derrotas e aprendendo que o futebol também é uma forma de construir família e memória.
O futebol é uma expressão privilegiada da sociedade brasileira, nele estão presentes a miscigenação, a improvisação, a ginga e a inventividade, analisadas por Gilberto Freyre, características que ajudaram a construir aquilo que se convencionou chamar de “estilo brasileiro” de jogar futebol, que o “mercado” parece querer destruir. O futebol brasileiro é mais que o jogo, é metáfora da própria identidade nacional. Essa identidade que está sendo destruída pelos interesses do mercado.
Da trajetória pioneira de Arthur Friedenreich à genialidade de Pelé, o futebol permitiu que o brasileiro enxergasse em si mesmo uma imagem positiva, capaz de superar preconceitos e afirmar talentos que ultrapassavam as limitações econômicas e sociais do país.
O verdadeiro patrimônio do futebol não está apenas nas taças ou nos estádios, mas na memória compartilhada, nos símbolos, nas torcidas, nos cânticos e nas histórias que atravessam gerações.
Daí a importância de instituições dedicadas à preservação dessa memória. Museus, centros de documentação e pesquisas acadêmicas cumprem papel essencial para impedir que a história do futebol seja reduzida ao espetáculo televisivo ou à lógica efêmera das redes sociais. Preservar essa memória significa preservar parte significativa da história cultural brasileira.
Se o futebol permanece patrimônio cultural, ele também se consolidou como um dos segmentos mais poderosos da indústria global do entretenimento.
Os clubes que buscam sucesso deixam de ser apenas associações esportivas e passam a operar como organizações empresariais altamente profissionalizadas. Direitos de transmissão, plataformas digitais, contratos de publicidade, programas de sócio-torcedor, licenciamentos e exploração comercial das arenas transformaram-se nas principais fontes de receita do esporte.
Nesse ambiente, o atleta deixou de representar apenas um ídolo esportivo para converter-se em ativo financeiro de elevado valor econômico. A formação, a negociação e a transferência de jogadores movimentam cifras bilionárias, aproximando o futebol da lógica dos mercados internacionais de investimento. No Brasil, a expansão das Sociedades Anônimas do Futebol (SAFs) representa talvez a expressão mais evidente desse novo modelo de gestão.
Mas nenhuma transformação recente foi tão profunda quanto a expansão das casas de apostas esportivas.
Em poucos anos, as chamadas bets passaram a ocupar o centro da economia do futebol brasileiro. Tornaram-se patrocinadoras principais da maioria dos clubes, adquiriram os direitos de nomeação de campeonatos, dominaram os espaços publicitários das transmissões esportivas e passaram a integrar praticamente toda a experiência de consumo do espetáculo.
Sou a favor da extinção das bets, pois, a paixão vem sendo substituída pela obsessão de apostar, substituindo parte da emoção esportiva pela expectativa do retorno econômico.
Essa mercantilização suscita inevitáveis questionamentos éticos. Quando o interesse financeiro passa a ocupar espaço crescente dentro do espetáculo esportivo, surgem dúvidas sobre os limites entre entretenimento, publicidade e indução ao jogo, especialmente diante da intensa exposição de jovens e populações economicamente vulneráveis.
O futebol brasileiro vive uma tensão permanente entre duas dimensões igualmente reais.
De um lado, permanece sendo um dos mais importantes patrimônios culturais do país, expressão da memória coletiva, da criatividade popular e da identidade nacional. De outro, tornou-se uma sofisticada engrenagem do capitalismo contemporâneo, submetida às exigências dos mercados financeiros, das grandes plataformas de mídia e, mais recentemente, das corporações de apostas esportivas.
Não há, necessariamente, incompatibilidade entre essas duas realidades. O problema surge quando a lógica do lucro passa a obscurecer a dimensão cultural do esporte, convertendo torcedores em consumidores permanentes e o futebol em simples mercadoria