A vitória por 3 a 0 sobre o Canadá, neste sábado (4), colocou o Marrocos novamente entre as oito melhores seleções de uma Copa do Mundo. É a segunda edição consecutiva em que os marroquinos chegam às quartas de final. Em 2022, a seleção marroquina alcançou a semifinal, eliminou grandes potências, terminou na quarta colocação e fez a melhor campanha da história de uma seleção africana em Mundiais.

O debate é bom, mas creio que o Marrocos já pode ser considerado a maior seleção africana da história do futebol. Não apenas pelos resultados recentes, mas principalmente porque consegue unir desempenho nas grandes competições com um projeto esportivo muito sólido e uma grande capacidade de renovação de uma maneira que nenhum outro país do continente conseguiu sustentar.

Puxando a história do esporte, outras seleções africanas viveram momentos igualmente marcantes, mas não conseguiram construir a mesma continuidade. Camarões, por exemplo, conquistou o ouro olímpico em Sydney, em 2000, e protagonizou boas campanhas em Copas, mas sofreu com anos de instabilidade administrativa e sequer conseguiu se classificar para esta edição do torneio.

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Final França x Argentina já não é tão inevitável assim

Outro exemplo nessa linha é a Nigéria, primeira africana campeã olímpica, em Atlanta, em 1996, que revelou diversas gerações talentosas e frequentemente figurou entre as principais equipes do continente, mas também nunca consolidou um projeto esportivo capaz de transformar esse potencial em uma presença constante entre as melhores seleções do mundo.

O Marrocos conseguiu preencher justamente essa lacuna. A atual geração atua nos principais clubes da Europa, a federação investe em infraestrutura, desenvolve talentos, monitora atletas da diáspora, planeja sucessões no comando técnico e não toma decisões apenas em função do resultado imediato. O desempenho desta Copa é consequência desse processo, não seu único objetivo.

A história da seleção de Marrocos, obviamente, não começou nos anos 2000. Na Copa do Mundo de 1986, fez boa campanha, classificou-se em primeiro em um grupo com Polônia, Inglaterra e Portugal e chegou às oitavas. Mas o cenário é incomparável com o atual, provando que o Marrocos conseguiu passar por uma boa transformação da sua forma de jogar.

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Boa parte dessa transformação começa fora de campo. Em dezembro de 2019, o país inaugurou o Complexo de Futebol Mohammed VI, um investimento de aproximadamente R$ 500 milhões. O local conta com mais de dez campos de treinamento, estrutura completa para medicina esportiva e um prédio para o departamento de scout, dedicado exclusivamente a identificar jogadores marroquinos espalhados pelo mundo antes que eles optem por defender outras seleções.

Esse trabalho já produz resultados concretos e tem exemplos entre os 11 titulares do atual time. É o caso do volante Ayyoub Bouaddi, de apenas 18 anos, que nasceu em Senlis, na França, e flertava com a possibilidade de jogar na seleção francesa. O Marrocos conseguiu convencê-lo a defender o Marrocos com um projeto esportivo bem feito e uma perspectiva clara de protagonismo.

Esse tipo de atuação é exatamente o oposto do que aconteceu no passado com Just Fontaine, por exemplo. Nascido em Marrakesh, ele se tornou um dos maiores jogadores da história da França e até hoje é o recordista de gols em uma única edição de Copa do Mundo, com 13, marcados em 1958. Naquele período, defender o Marrocos simplesmente não representava uma oportunidade esportiva competitiva, mas hoje a realidade é completamente diferente.

O planejamento da federação também mostrou enorme maturidade ao entender que resultados não impedem evoluções. Mesmo depois da campanha histórica na Copa de 2022, comandada por Walid Regragui, a avaliação interna foi de que o Marrocos precisava dar um passo além na forma de jogar. Embora extremamente competitiva, aquela seleção baseava seu sucesso em um modelo muito reativo, jogando em um 4-1-4-1 (ou 5-4-1, como foi na eliminação contra a França), com linhas baixas e pouca posse de bola. A decisão foi buscar um treinador que mantivesse a competitividade, mas desenvolvesse um futebol mais propositivo.

Por isso, o Marrocos iniciou a nova Copa com Mohamed Ouahbi, campeão da Copa do Mundo Sub-20 de 2025 e que mantém um esquema mais ofensivo. Os primeiros minutos da estreia contra o Brasil e, principalmente, o segundo tempo da vitória sobre o Canadá mostraram uma seleção confortável com a posse de bola, pressionando o adversário e propondo o jogo sem perder a organização defensiva que marcou a geração anterior.

Mais do que alcançar a melhor campanha africana dentro de uma Copa do Mundo no curto prazo, o Marrocos criou condições para permanecer competitivo durante muitos anos. A geração marroquina está nos principais clubes da Europa, tem direção e planejamento. Se não acontecer nenhuma grande tragédia na rota da Federação, tenho certeza de que seguirá, Copa após Copa, escrevendo história.

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