Esportes de Primeira por Itamar Ciríaco
Jornalista
(itamar@tribunadonorte.com.br)

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Á teorias no futebol que nascem em uma mesa de bar, ganham um vídeo nas redes sociais e, algumas vezes, merecem uma segunda rodada de conversa antes de serem mandadas para o arquivo das bobagens. A que me chegou pelas redes sociais esta semana é uma delas. A pergunta é provocativa: será que o fim do mata-mata no Campeonato Brasileiro ajudou a mudar o jogador brasileiro? Calma.

Não estou dizendo que descobrimos finalmente o culpado pela ausência do hexa. Também não vamos colocar os pontos corridos no banco dos réus, algemados, esperando julgamento pelo fracasso brasileiro nas últimas Copas.

Mas a hipótese é suficientemente interessante para ser discutida. E talvez exista uma parte dela que faça sentido. Até 2002, o Campeonato Brasileiro tinha uma característica que hoje parece quase folclórica: o campeonato podia começar em agosto, mas a vida do sujeito era decidida em novembro.

Era mata-mata. Chegavam os melhores. Quartas de final. Semifinal. Final. E aí não havia estatística de regularidade que salvasse ninguém. Você podia ter feito uma excelente campanha. Mas se jogasse mal no momento errado, estava eliminado. Em 2003, mudou tudo.

O Campeonato Brasileiro adotou os pontos corridos. A edição daquele ano teve 24 clubes e 46 rodadas. Não havia quartas de final. Não havia semifinal. Não havia aquela transformação quase instantânea de uma partida comum em jogo de vida ou morte.

O campeão seria aquele que acumulasse mais pontos. A regularidade ganhou. E a regularidade, convenhamos, não é exatamente uma palavra que combine com a tradição mais romântica do futebol brasileiro.

O vídeo que provocou esta coluna sustenta uma tese ainda mais ousada. A de que nós teríamos importado da Europa não apenas um modelo de competição, mas uma cultura.

Deixamos de valorizar o jogador que aparece na hora decisiva e passamos a premiar aquele que entrega durante toda a temporada.

A ideia é sedutora. O problema é que sedução não é prova. E futebol, apesar de continuar sendo território fértil para opiniões, também precisa de fatos.

Vamos começar pelo que é verdade. Jogar sob pressão é diferente de jogar sem pressão. Isso não é invenção de torcedor nostálgico. A literatura científica sobre esporte mostra que situações de alta pressão podem alterar ansiedade, tomada de decisão e execução técnica.

Em outras palavras: existe, sim, uma diferença entre fazer uma coisa quando se tem tempo para errar e fazê-la quando se sabe que um erro pode eliminar sua equipe. É por isso que existe jogador de treino e jogador de decisão.

É por isso que determinados atletas parecem crescer quando o jogo fica maior. É por isso que há jogadores que desaparecem justamente quando o estádio inteiro está olhando para eles. E aqui a teoria do vídeo começa a ficar interessante.Porque o mata-mata oferecia ao jogador brasileiro uma espécie de laboratório permanente de pressão. Você não precisava esperar a Copa do Mundo. A decisão estava ali. No clube. No estádio. Na frente de 60 mil pessoas.

Um erro poderia significar eliminação. Um gol poderia transformar um jogador em ídolo. Uma defesa poderia entrar para a história. Um pênalti perdido poderia acompanhar o sujeito pelo resto da carreira. Era cruel? Era.

Mas futebol nunca foi exatamente um curso de extensão em administração de conflitos. Só que existe um problema enorme na teoria. O Brasil não parou de produzir craques depois de 2003. Muito pelo contrário.

Depois da implantação dos pontos corridos, tivemos Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Adriano, Robinho, Neymar, Casemiro, Marcelo, Thiago Silva, Vinicius Junior e Rodrygo. E tantos outros. Alguns foram decisivos em clubes. Outros na Seleção.

Alguns ganharam Champions League. Outros foram protagonistas em grandes competições internacionais. Portanto, não dá para afirmar que o Brasileirão de pontos corridos criou uma geração de jogadores incapazes de suportar pressão. Seria uma conclusão muito maior do que os fatos permitem. E há uma ironia interessante.

O Brasil continua sendo, em 2026, o maior exportador de jogadores do mundo. Segundo o CIES Football Observatory, há 1.455 jogadores brasileiros atuando em 135 ligas profissionais estrangeiras. Ou seja: se estamos produzindo menos jogadores, eles estão escondendo muito bem essa informação. O problema talvez seja outro. Talvez não estejamos produzindo menos jogadores. Talvez estejamos produzindo jogadores diferentes. E essa diferença é muito mais interessante. Porque há uma pergunta que merece ser feita. Onde estão os nossos meias?

Não estou falando simplesmente de jogadores que ocupam a faixa central do campo. Estou falando do meia brasileiro clássico. O sujeito que recebe entre as linhas. Levanta a cabeça. Enxerga o passe antes de todo mundo. Controla o ritmo. Chama a responsabilidade. Quebra uma linha. Cria uma jogada que não estava desenhada. , principalmente, decide quando o jogo está pedindo alguém que faça alguma coisa diferente