Revoltou-me muito mais a ingerência do presidente norte-americano, Donald Trump, na Copa do Mundo do que a pífia — e merecida (cabe dizer) — eliminação do Brasil de Neymar Jr. e seus asseclas. Pior do que o "pedido" do titular da Casa Branca pela "revisão" do cartão vermelho dado a Folarin Bolagun, atacante dos Estados Unidos, foi a aquiescência da Fifa. Na verdade, uma excrescência.

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Ao vergar-se a Trump, a entidade máxima do futebol apequenou-se. Mostrou que não se envergonha em ceder aos caprichos de um estadista sem apreço pela democracia. Um chefe de Estado que não enxerga um palmo além de seu umbigo e que pediu à própria Fifa para lhe dar um "Nobel da Paz". Supresa nenhuma, Gianni Infantino providenciou o tal prêmio.

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Durante a Copa do Mundo, Trump impôs restrições vergonhosas à permanência da seleção do Irã em território norte-americano e impediu a entrada de um árbitro da Somália. De quebra, o ICE — a famigerada polícia de Imigração dos Estados Unidos — promoveu uma verdadeira caçada aos imigrantes não documentados, aproveitando-se do fato de que muitos latinos apoiariam seu escrete nacional nos estádios de futebol. Em cinco dias, foram mais de 10 mil prisões.

A interferência nas regras da Copa do Mundo apenas diz algo a mais sobre Trump. Em quase 18 meses no poder, ele declarou guerra tarifária ao mundo e menosprezou aliados históricos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Entrou em uma guerra contra o Irã e amargou uma derrota vexaminosa. Ordenou uma operação militar na Venezuela, capturou Nicolás Maduro e não apresentou alternativa ao chavismo, deixando a população "ao deus-dará". Ameaçou atacar o México. No cenário interno, semeia polarização, cizânia e ódio e é cortejado por supremacistas brancos, que foram até Washington para o Dia da Independência, no sábado. Uma festa transformada em culto à imagem do egocêntrico Trump.

Assusta o fato de que faltam 927 dias de governo Trump. Em 899 dias, ele causou danos ao planeta. Há quem diga que o próximo alvo do americano é o regime socialista de Cuba. Tudo o que vai contra a ideologia capitalista parece estar na mira do Tio Sam. Existe o temor, inclusive, de que Trump interfira nas eleições brasileiras e ordene alguma ação militar contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

Adendo: os EUA sofreram uma goleada da Bélgica, pelas oitavas de final da Copa. Perderam por 4 a 1 e estão eliminados do torneio. Trump está de mãos atadas. Não poderá anular três gols, nem se quisesse. Vai precisar ficar com sua empáfia e com a vergonha por tentar interferir em uma Copa da qual sua seleção jamais teria a mínima chance de ser campeã.

Jornalista formado pela Universidade Federal de Goiás (UFG) em 1997. Curioso por natureza, adora buscar histórias. Desde 2005, trabalha no Correio Braziliense, onde entrevistou laureados com o Nobel da Paz, embaixadores e ex-presidentes