O Brasil descobriu uma coisa meio óbvia, mas que demorou alguns anos para virar problema nacional: quando você coloca um cassino dentro do celular, facilita o pagamento com Pix e transforma aposta em assunto de futebol, influencer e entretenimento, não deveria ser exatamente um choque descobrir que milhões de pessoas começaram a jogar.

O governo federal prepara uma medida provisória para restringir os cassinos online. Segundo informações divulgadas pela Reuters, a decisão sobre o texto deve ser tomada antes do primeiro turno das eleições, mas o formato final da medida ainda não havia sido publicado. E existe uma diferença importante aqui: a discussão em curso está concentrada principalmente nos cassinos online, que, segundo a ANJL, representam 73,9% do volume movimentado pelo setor. As apostas esportivas responderiam pelos outros 26,1%.

Ou seja: não estamos falando de uma mudança cosmética.

Estamos falando de mexer justamente na maior fatia do negócio.

As apostas de quota fixa foram legalizadas em 2018 no âmbito das apostas esportivas. Em 2023, a Lei 14.790 ampliou o marco legal para incluir os jogos online. O mercado regulado começou a operar sob as novas regras em janeiro de 2025.

É por isso que dizer simplesmente “as bets foram legalizadas” esconde uma história mais complicada.

O que ninguém consegue esconder é a velocidade da expansão.

Segundo a CNC, os gastos mensais com apostas online saíram de praticamente zero em janeiro de 2023 para mais de R$ 30 bilhões em março de 2026, uma alta superior a 500% no período. A entidade também estimou impacto sobre o endividamento e a inadimplência das famílias.

Mas aqui entra uma ressalva importante: representantes do setor contestaram tanto a metodologia quanto as conclusões da CNC. A ANJL e o IBJR questionaram a relação causal entre a expansão das bets e o endividamento e pediram acesso aos dados e à metodologia usados pela confederação. Portanto, é mais correto tratar esses números como estimativas da CNC em meio a um debate metodológico contestado, e não como uma verdade econômica definitiva.

Mesmo com essa disputa, uma coisa continua impressionante: o tamanho que esse mercado alcançou em pouquíssimo tempo.

O Banco Central estimou que cerca de 24 milhões de pessoas físicas fizeram ao menos uma transferência via Pix para empresas de apostas entre janeiro e agosto de 2024. No período, as plataformas receberam, em média, cerca de R$ 20,8 bilhões por mês, e o BC estimou que aproximadamente 15% do valor apostado ficava retido pelas empresas, enquanto o restante era distribuído como prêmio.

Já o número de R$ 68,2 bilhões movimentados, cerca de R$ 44 bilhões devolvidos em prêmios e R$ 23,9 bilhões de perda líquida vem de outro estudo: uma análise do Itaú Unibanco sobre 12 meses até junho de 2024, reportada pela Forbes Brasil.

Parece uma diferença burocrática de autoria, mas não é. Em um tema em que todo mundo já está armado com uma calculadora e uma opinião, saber quem calculou o quê faz toda a diferença.

Antes do Tigrinho, já existiam loterias, jogo do bicho, apostas esportivas, bingo, cassino ilegal e aquela clássica “vou colocar dez reais só para dar emoção ao jogo”.

Então seria exagerado dizer que a publicidade inventou uma demanda do zero.

O que ela fez foi outra coisa: ajudou a transformar a aposta em produto de consumo cotidiano.

Camisa de clube. Comercial na televisão. Influenciador. Streamer. Notificação no celular. Aposta ao vivo. Bônus. “Green”. Odd. Pix.

De repente, aquilo que antes ficava em um canto mais obscuro da cultura do jogo passou a fazer parte da linguagem do entretenimento.

A bet deixou de parecer uma coisa que alguém fazia escondido e passou a ser vendida como parte da experiência de assistir ao futebol.

Esse processo não é exatamente segredo. A regulamentação brasileira criou regras específicas para publicidade e proibiu, entre outras coisas, mensagens que apresentem apostas como forma de enriquecimento ou complementação de renda