A Premier League puxa a fila contra os patrocínios de bets — por que o Brasil não faz o mesmo?

A proibição no Campeonato Inglês tem um quê de ‘para inglês ver’: as marcas ainda podem ocupar as mangas e as placas publicitárias ao redor do campo. Crédito: Coluna: Rodrigo Capelo; Edição: Amanda Dantas; Supervisão e Distribuição de conteúdo: Jefferson Perleberg

“O fim da escravidão acarretará bancarrota e anarquia”. José de Alencar, em 1871. Acabou com o Brasil?

Dutra fechou os cassinos, em 1946. Mais de 60 mil desempregados. Sem impostos, sem estrangeiros. Fora os brasileiros que desde então saem para jogar fora. Ou na tavolagem escamoteada em nosso quintal.

Reação de clubes a MP contra bets saiu após casas de apostas ameaçarem revisão de patrocínios

Há 30 anos não tem propaganda de cigarro. E ainda somos 13 milhões de adultos fumando passivamente. No mundo são 2,7 bilhões. Mais de 1,6 milhões de mortes por ano de quem nunca fumou.

Ludopatia é vício propagado. Doença que devasta gente e lares. Como a bebida e vícios menos visíveis também podem.

O futebol brasileiro “vai acabar” sem as bets que podem acabar com pessoas? Jamais. O governo em pleito precisa ouvir as “dores” do setor. E as dores maiores não são efeitos colaterais.

O torcedor já paga a conta dos clubes também viciados. O futebol está dependente. A mídia. Eu. Rehab é salutar. Mas tirando a erva não matamos os danos. Dealers de outros países e plataformas clandestinas ficariam com bolada que pode chegar a R$ 73 bilhões. Valor que o País deixaria de arrecadar em impostos em quatro anos de atividade regulada. Outras plagas receberão dinheiro sem tributos devidos.

Em seis meses de 2026, bets geraram R$ 2,5 bilhões para políticas publicas – ainda que reduzindo consumo e outras atividades econômicas. Devolveram ao apostador 83% do dinheiro aplicado.

Quase 45% das apostas são em sites ilegais. Pode virar 100% se desregulada ou proibida. Tem solução. Mas não pra já. Nem todo débito do brasileiro endividado é das bets: estimam que 0,46% da renda familiar é gasta em apostas.

Nas primeiras duas semanas de Copa, mais de 250 mil pedidos de bloqueios de apostadores foram feitos pelos próprios. Mas só o ludopata não consegue se ajudar. Ele pode entrar em outra casa para derrubar a própria. Por isso é essencial a regulamentação. O mesmo CPF só apostaria em um lugar. Extratos e notificações de apostas para terceiros. Há como. Só não pode seguir em coma e como se não fosse com a gente.

Eu não tenho a solução. Sou parte atuante do problema quando sai do controle e da conta. Mas não é pela repressão ou supressão. Um período de (re)adaptação não é compulsão. É compulsório.

Não podemos apostar no caos deixado à própria sorte. É preciso fiscalizar e rastrear. Ser responsável, defender a integridade esportiva. Mais que tudo: não acabar com as pessoas.

Tem que ser legal para tudo e para todos. O jogo vai seguir. Ele precisa de regra