A FIFA precisa demonstrar, por meio de suas ações, que a maior força do futebol reside em sua capacidade de influenciar positivamente o mundo, e não em sua capacidade de sucumbir à pressão política.
Eu nunca fui jogador de futebol. No entanto, durante quase vinte anos nas Nações Unidas, participei de iniciativas que me ensinaram uma verdade fundamental: o futebol é muito mais que um esporte.
Em Bangui, durante um torneio organizado pela missão de paz das Nações Unidas para reunir jovens de comunidades que haviam sido inimigas recentemente, vi Gloire à Dieu passar a bola para Moussa. Anos antes, suas famílias haviam entrado em conflito. Mas aquele torneio não era simplesmente uma competição esportiva. Os treinos, as partidas e as experiências compartilhadas derrubaram barreiras que pareciam intransponíveis. Esses jovens aprenderam a se conhecer, a se respeitar e a jogar juntos. O futebol não apagou o passado, mas ajudou a reconstruir a confiança.
Vi esse mesmo poder transformador em muitos outros lugares. Em Ruanda, o futebol tornou-se um incentivo para que milhares de crianças frequentassem a escola e tivessem acesso aos programas de alimentação do Programa Mundial de Alimentos. Também presenciei isso em vários países africanos, quando figuras importantes do futebol emprestaram seu prestígio à iniciativa Roll Back Malaria para convencer famílias a protegerem seus filhos contra a malária. O futebol não se resumia a marcar gols; também ajudava a salvar vidas.
É por isso que acompanho com preocupação as recentes controvérsias em torno da FIFA e a sensação de que a política se tornou parte desta Copa do Mundo. A organização deve responder com total transparência. Se suas regras foram aplicadas corretamente, deve explicar isso claramente. Se houve erros, deve reconhecê-los e aceitar as consequências. É assim que grandes instituições constroem e preservam sua credibilidade.
Mas, na minha opinião, o mais importante vai muito além dessa controvérsia. A FIFA não existe isolada do mundo. Ela trabalha diariamente com governos, empresas e organizações em todos os continentes, e essa proximidade é inevitável. O que ela jamais poderá perder é sua independência ou seu senso de missão. Porque a verdadeira riqueza deles não está na Copa do Mundo, na receita ou na enorme influência comercial. Seu maior trunfo é a extraordinária capacidade do futebol de mudar mentalidades.
A FIFA pode usar essa influência para incentivar governos a investirem mais em saúde, educação, proteção infantil, igualdade de gênero, respeito às pessoas LGBT, paz e desenvolvimento. Não por meio de política partidária, mas colocando o imenso poder do futebol a serviço de valores universais.
É precisamente aí que a Fundação FIFA pode desempenhar um papel decisivo. A resposta a essa crise não deve se limitar a medidas legais ou institucionais; deve também ser uma oportunidade para olhar para o futuro com ambição. A FIFA já possui as ferramentas necessárias, e sua Fundação pode se tornar uma das maiores forças filantrópicas do planeta. Pouquíssimas organizações têm a capacidade de mobilizar centenas de federações nacionais, milhões de jogadores, patrocinadores internacionais e bilhões de torcedores em torno de um único objetivo.
A Fundação não deve ser vista como uma atividade secundária, mas como uma das missões centrais da FIFA. Para alcançar esse objetivo, ela precisa de recursos compatíveis com a escala do futebol mundial e de uma estrutura de governança ainda mais aberta a figuras independentes, reconhecidas por sua integridade, experiência e liberdade de julgamento. Pessoas capazes de oferecer uma perspectiva externa, fazer as perguntas difíceis quando necessário e contribuir para a construção de uma visão de longo prazo.
Campanhas de comunicação e declarações de boas intenções já não são suficientes. O futebol possui uma capacidade de mobilização incomparável a qualquer outro esporte. Seria uma oportunidade perdida se esse poder fosse percebido apenas como um instrumento de influência, quando pode se tornar uma das maiores ferramentas a serviço do bem comum.
Vi o futebol reconciliar comunidades divididas, incentivar milhares de crianças a irem à escola e ajudar a salvar vidas. Continuo convencido de que sua maior vitória jamais será decidida apenas dentro de campo, mas sim em sua capacidade de tornar o mundo um lugar um pouco melhor.
Porque, em última análise, o futebol sempre será muito mais do que um esporte.
*Hervé Verhoosel foi alto funcionário das Nações Unidas por mais de 20 anos. Ao longo de sua carreira, trabalhou nas áreas de saúde global, desenvolvimento, ajuda humanitária e operações de paz, frequentemente utilizando o futebol como ferramenta para conscientização, educação e reconciliação. Atualmente é consultor independente em assuntos internacionais e comunicação estratégica.
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