Influenciadores se aproveitam do silêncio dos clubes e transformam desinformação, perseguição pessoal e clubismo em negócio
A gritaria dá dinheiro. No futebol, ódio, mentira e clubismo produzem audiência, influência e dólares.
Reels, lives, cortes e posts de 280 caracteres alimentam esse mercado. Qualquer derrota vira vexame histórico, rumor ganha status de notícia, crítica dá lugar à perseguição pessoal e indignação se transforma em espetáculo. Números de telefone são vazados. Fotos das casas de famílias são expostas. Torcedores são convocados para uma cruzada. E quase nada consegue deter essa engrenagem.
À 1ª vista, parecem torcedores comuns indignados, mas estão longe de agir de forma desinteressada, só pela paixão. Vivem do clique, da audiência e de Pix pedido aos seguidores. Quanto mais grave a acusação, maior o engajamento.
Há quem se apresente como independente e, no privado, peça favores e carguinhos nos clubes que diz defender. Outros transformam interesses políticos e ressentimentos pessoais em cruzadas. Há ainda profissionais que trocaram a busca pela informação precisa por uma “apuração” feita quase sempre com gente interessada em alimentar o caos.
Colegas jornalistas relatam uma cena recorrente. O time perde, a câmera liga e começam os berros e as acusações. Terminada a transmissão, o personagem tira a máscara e volta a conversar tranquilamente com a pessoa ao lado, como se nada tivesse acontecido. A raiva era conteúdo. O ódio, produto. O berro dá dinheiro. TikTok, YouTube e Meta ajudam a pagar a conta.
O torcedor de verdade fica no meio dessa guerra, exposto a “notícias” sobre brigas imaginárias, conspirações e traições internas. E são jogados na lama os nomes de empresas sérias e de profissionais que só trabalham correta e honestamente pelo clube que os detratores dizem amar.
No Corinthians, o vice-presidente Armando Mendonça virou personagem dessa fábrica de moer gente. Um relatório interno atribuiu a ele a retirada de 131 peças de material esportivo fornecido pela Nike. O número correu pelas redes e virou verdade.
Armando reconheceu a retirada de 47 itens para uso institucional, nunca para benefício próprio. Das 131 peças vinculadas a seu nome, 62 sequer saíram das dependências do Corinthians. Foram transferidas entre almoxarifados. Todas estavam registradas no sistema de controle que o próprio dirigente resolveu implantar. Os uniformes foram entregues, com identificação dos destinatários, a corintianos com quem o clube se relaciona institucionalmente. Na lista, estavam integrantes da própria diretoria, o presidente da Comissão de Ética e até Ado, ex-goleiro e personagem histórico do Corinthians.
A explicação, claro, não teve a mesma repercussão. Do dia para a noite, um advogado com 3 décadas de carreira passou a ser tratado como “ladrão de camisetas”. Vieram a reboque centenas, depois milhares, de ataques de pessoas comuns e robôs.
A Polícia Civil investigou e concluiu que não havia indícios de crime. O Ministério Público discordou, apresentou denúncia e a Justiça recebeu a acusação. Armando virou réu e será julgado. Nas redes, a sentença já havia sido dada.
A perseguição chegou à família. Dados pessoais e CPFs foram expostos. Houve campanha para inscrever parentes como mesários nas próximas eleições. Os filhos precisaram desativar os comentários nas redes sociais. Seu pai acabou hospitalizado.
Em 5 de setembro, Armando apareceu no Parque São Jorge usando óculos. Um blogueiro afirmou que eram óculos inteligentes da Meta e que o vice estava gravando pessoas sem consentimento. Eram só óculos comuns, de grau. Não havia 1 segundo de imagem produzida. Mais uma onda de fake news que virou verdade.
No São Paulo Futebol Clube, parte dos perfis e “jornalistas” que se apresentam como fiscais da gestão faz campanha diária contra a situação. A gestão de Harry Massis está sob bombardeio desde que ele assumiu o cargo, depois do afastamento do ex-presidente Julio Casares.
O massacre atingiu também 2 dos principais profissionais do futebol: o executivo Rui Costa e o técnico Roger Machado. Os 2 foram vítimas de um ataque orquestrado que tinha como objetivo tornar insustentável a permanência deles no São Paulo FC. Nessa guerra sem limites, pouco importava a verdade. A ideia era destruir reputações para vencer a disputa política.
Até a escolha da nova tiqueteira entrou nesse mesmo ambiente. Depois de uma concorrência com 6 participantes, a diretoria optou pela Ticketmaster. O processo está no Conselho Deliberativo, dividido politicamente, como ocorre em tantos clubes.
Os mesmos grupos de influenciadores passaram a defender o embrião de uma “proposta” apresentada pela empresa derrotada no processo. Um PowerPoint falava em captar até R$ 500 milhões, sem comprovação de que o dinheiro existiria. Em troca, entravam no pacote publicidade, naming rights, camarotes, concessões e o direito de superfície do MorumBIS.
A operação era intermediada por uma empresa que já havia enfrentado problemas graves em duas concessões de estádios. Em 2014, o governo do Ceará interveio na administração do Castelão alegando deficiências graves na operação. Anos depois, o governo de Minas decretou a caducidade da concessão do Independência e apontou cerca de R$ 36 milhões em repasses não realizados ao poder público.
Os “R$ 500 milhões” foram vendidos isoladamente, como se estivessem disponíveis imediatamente para o clube. Não havia nada além de uma ideia. Os riscos, estes sim, eram concretos.
Quando a “verdade” já está escolhida antes da apuração, a promessa, o factoide e o PowerPoint bastam. Por má-fé ou desinformação, a versão mais conveniente foi definida antes do debate