Há Copas em que a humanidade parece lembrar, por algumas semanas, que ainda sabe se reunir em torno de um encantamento comum

O Brasil decepcionou, Trump se meteu onde não devia, o presidente da Fifa revelou-se um lambe-botas do norte-americano e o fantasma da xenofobia fez algumas aparições indesejadas, tanto nas restrições impostas pelos Estados Unidos a cidadãos de determinados países quanto em postagens de ódio nas redes sociais. Ainda assim, tudo indica que a Copa do Mundo de 2026, que hoje começa a ser decidida pelas quatro seleções mais competentes, já pode ser considerada a melhor de todos os tempos, com o brilho de craques talentosos, disputas empolgantes e multidões envolvidas numa celebração planetária.

O nome disso é futebol, como ironizou a federação belga depois da eliminação dos Estados Unidos, numa publicação em que a palavra soccer aparecia riscada. E futebol, mais do que um esporte, é uma lição de vida: é a possibilidade de ascensão ao estrelato do menino pobre da periferia, é a fraternidade entre atletas de origens diversas, é o reconhecimento ao esforço, à determinação e ao trabalho coletivo. Mais: futebol é também a impensável probabilidade de o mais fraco ser mais hábil, de o humilde ser exaltado, de a zebra se transformar em puro-sangue.

Futebol é a afirmação da eficiência, mas também é resistência dos mais frágeis diante dos mais poderosos. Um exemplo? Depois dessa Copa e pelo tempo que sua lembrança durar, seremos todos cabo-verdianos, especialmente os falantes da última flor do Lácio, inculta e bela. Como esquecer aquela seleção estreante que representou um país formado por 10 ilhas vulcânicas, com pouco mais de 500 mil habitantes, e enfrentou gigantes com a coragem de um David contra Golias ou de um Odisseu diante do cíclope da fábula?

O futebol é a mitologia moderna sendo escrita diante de nossos olhos. No rastro mágico da bola, homens comuns viram heróis e heróis se transformam em deuses, mas todos, como humanos que realmente são, estão sujeitos à falha ou à infelicidade. Basta um pênalti mal executado para o ungido se tornar abominável.

A Copa do Mundo de três países não apenas reafirma a magia e o encantamento do esporte mais popular do planeta, mas comprova, também, que a humanidade tem potencial para celebrar pacificamente a própria existência.

O jornalista Nílson Souza escreve semanalmente em ZH