O Brasil encontra-se preso a uma dinâmica prejudicial sustentada por quatro pilares: o jogo, o futebol, o carnaval e a corrupção. Trata-se de uma estratégia histórica de distração em massa, que mantém o foco popular desviado enquanto os recursos públicos são dilapidados. Juntos, esses elementos formam uma engrenagem que perpetua o subdesenvolvimento: o entretenimento atua como anestésico social, permitindo que a corrupção se alastre pelos Três Poderes sem encontrar resistência proporcional.
O boom das bets transformou o Brasil em um cassino gigante a céu aberto. Iludidos pela promessa do ganho rápido, milhões de brasileiros ignoram a matemática implacável do jogo: o apostador sempre perde para o banqueiro. No fim, a conta dessa ilusão é paga pela economia real, desprovida de recursos essenciais.
O futebol constitui uma das principais manifestações de alienação social no país. Sob a justificativa do espetáculo, da “malemolência” e do talento individual, a cultura esportiva — alinhada à teledramaturgia — promove um escapismo que anestesia a consciência crítica do brasileiro. O apelo ao “jeitinho”, atuando como dopante social, desmobiliza a capacidade de indignação coletiva e perpetua a aceitação de condições precárias no presente em troca de uma vã esperança no futuro.
Esse desejo de evasão estende-se ao calendário nacional. Ao paralisar a atividade produtiva por mais de uma semana, o Carnaval — com seu histórico elo com a contravenção — reduz a produção de bens e serviços, impondo um custo elevado a uma economia que já opera em ritmo desacelerado.
O entretenimento superficial de massa atua como uma cortina de fumaça para a consolidação de práticas corruptas sistêmicas. A gravidade do problema não se limita à apropriação indevida do erário, mas alcança a precarização intencional dos serviços essenciais. A ausência de mecanismos rigorosos de fiscalização sobre as emendas parlamentares, somada ao custeio abusivo do fundo eleitoral, institucionalizou o desperdício de recursos e a perpetuação de oligarquias políticas.
A educação básica sofre um processo de erosão com a remuneração indigna dos professores, ao mesmo tempo em que os hospitais universitários são levados ao colapso. O desmonte da saúde pública tem um beneficiário claro: o mercado de planos de saúde e seguradoras. Diante da ineficiência estatal, o cidadão se vê forçado a recorrer ao setor privado, que mercantiliza a saúde e transforma o medo em lucro.
A realidade descrita ganha contornos estatísticos ao comparar a educação brasileira com o cenário internacional. Segundo os dados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (PISA) de 2025, o Brasil permanece estagnado em patamares baixos de desempenho, mantendo-se distante da média da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
Entre as 91 nações avaliadas, o país obteve 377 pontos em Matemática (71º lugar), 409 em Ciências (67º) e 408 em Leitura (52º). O déficit em Matemática é o mais crítico, equivalendo a aproximadamente 4,6 anos de atraso na escolaridade. No contexto latino-americano, o desempenho brasileiro segue intermediário, figurando atrás de nações como Chile, Uruguai e Costa Rica.
Nos períodos eleitorais, a retórica política frequentemente se sobrepõe ao debate real sobre as urgências socioeconômicas do Brasil. Se a energia gasta em propaganda fosse canalizada para a execução de políticas públicas efetivas, o país já teria alcançado outro patamar de desenvolvimento. Resta à sociedade escolher entre a passividade diante das falhas de gestão e a indignação civil como força transformadora.
* Professor emérito da UFPE e membro titular das Academias Brasileira e Pernambucana de Ciências.
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