O que pensam os jovens cientistas no Brasil? Por Instituto Serrapilheira
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Diretor do Programa de Ciência do Instituto Serrapilheira
Vimos o hexa passar mais uma vez. Seis eliminações atrás, na Copa do Mundo de 2006, o Brasil foi derrotado nas quartas de final pela França, com gol de Henry, numa das grandes (e últimas) partidas de Zidane. O Brasil tinha o "quadrado mágico" –Ronaldo, Adriano, Kaká e Ronaldinho–, jogadores excepcionais que, juntos, tornavam o time desbalanceado. Uma frase que Galvão Bueno repetia me marcou: "O Brasil tem um time com grandes estrelas, mas não tem um grande time".
Assim como o futebol, a pesquisa é um esforço colaborativo com várias funções: desenhar projetos, fazer experimentos, coletar dados, modelar sistemas, desenvolver software, analisar resultados. Como no futebol, há incentivos para a competição entre indivíduos (cientistas disputam "grants" e vagas; jogadores, contratos, prêmios e artilharia) e para a vitória do grupo (ganhar uma partida ou descobrir a cura de uma doença).
O problema é quando cientistas são recompensados apenas por conquistas individuais. É como se os atacantes fossem avaliados só pelos gols que marcam e a vitória não importasse. Teríamos jogadores fominhas, priorizando a artilharia a passar a bola para um companheiro mais bem posicionado.
Recentemente, pesquisadores passaram a considerar uma alternativa: coordenar a pesquisa em grupos com objetivos compartilhados (a vitória); uma camada de gestão (o técnico) e equipes compostas conforme as necessidades do projeto (jogadores de posições diferentes). É o modelo adotado por iniciativas como o Cern ou o Projeto Genoma Humano, mas ainda incomum fora da chamada "big science".
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Um dos argumentos é a vantagem da especialização. Em vez de exigir que todo cientista saiba "jogar em todas as posições", equipes poderiam assumir projetos mais ambiciosos e distribuir tarefas conforme as competências de cada integrante. Problemas grandes demais para um único laboratório seriam enfrentados coletivamente, como fez um grupo nos Países Baixos ao substituir dezenas de propostas concorrentes por uma única. O que vai ser avaliado é o progresso do objetivo maior e compartilhado do grupo –e não apenas o sucesso de cada subprojeto.
Isso também mudaria a formação dos pesquisadores. Não bastaria selecionar só os maiores goleadores; seria preciso diversificar papéis e valorizar habilidades complementares. Afinal, se todo mundo é treinado para ser camisa 9, não dá para reclamar quando o time leva muitos gols.
A forma de financiar a ciência também seria afetada. Segundo o relatório The Future of Peer Review, do Research on Research Institute, muitos dos desafios que a ciência enfrenta estão entrelaçados e só tem soluções com reformas mais estruturais. Um dos problemas é a sobrecarga de propostas –exacerbada pela IA generativa. Se todos precisam submeter várias propostas para conseguir financiamento, e todas exigem revisão por vários pares, no limite, ninguém mais faz pesquisa, só revisa propostas. O relatório recomenda que agências de fomento não sejam apenas gestoras de competição e assumam um papel mais estratégico, apoiando iniciativas de maior escala, pois "o ciclo interminável de análise de propostas é insustentável".
Projetos individuais continuam em campo, mas ganharíamos ao abrir mais espaço para equipes coordenadas e objetivos compartilhados. Cabe às agências de fomento e instituições de pesquisa refletir sobre como times de cientistas funcionam e colaboram, e até onde vale experimentar novos modelos de apoio. Talvez seja um caminho para evitar que a ciência não venha a amargar sucessivas derrotas, tal qual a nossa seleção.
O Ciência Fundamental é editado pelo Serrapilheira, um instituto privado, sem fins lucrativos, de apoio à ciência no Brasil. Inscreva-se na newsletter do Serrapilheira para acompanhar as novidades do instituto e da coluna.
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