Os vídeos de celebrações no Líbano de vitórias do Brasil inundam as redes sociais. Faz sentido. Poucos povos no planeta possuem uma conexão tão forte quanto a existente entre brasileiros e libaneses. Embora nenhum tenha sido colônia do outro, não falem a mesma língua e estejam a mais de 10 mil quilômetros de distância, os dois acabaram unidos por uma forte imigração com poucos paralelos na história mundial.

Sim, libaneses imigraram também para vários lugares do planeta, como Austrália, Estados Unidos, Argentina, França, Canadá, Colômbia (Shakira é de origem libanesa) e México. Nenhum deles, no entanto, na mesma escala que o Brasil. Há mais descendentes de libaneses no território brasileiro do que libaneses no Líbano. Todos nós conhecemos alguns. Este próprio colunista é neto de libaneses, assim como outros dois colegas aqui do caderno da Copa — o Fernando Kallas, que viveu anos em Beirute, e o genial “brimo” Carlos Eduardo Mansur. Ligou na SporTV? Assistirá ao também “libanês” André Rizek. Ao mesmo tempo, os libaneses fazem parte dos grandes grupos que imigraram para o Brasil, ao lado dos italianos, dos japoneses e dos portugueses.

A conexão de cada diáspora com a terra dos seus ancestrais e das terras ancestrais com o destino dos imigrantes possui diferenças. Como estamos falando do apoio dos libaneses ao Brasil em Beirute, falarei do Líbano, esta nação minúscula, menor do que Sergipe, margeando o “Mar Mediterrâneo, com suas montanhas nevadas e seu verdejante Vale do Beqaa”, como nós descendentes gostamos de descrever a nação dos cedros.

Impactado por guerras e tragédias, o Líbano possui boas seleções de basquete, chegando a conquistar a Copa da Ásia. Mas não tem tradição no futebol. Nunca disputou uma Copa do Mundo. Quando começa o Mundial, os libaneses vestem as camisas de suas seleções preferidas, como se fossem as do Flamengo, Fluminense, Botafogo e Vasco. Cito os times do Rio porque o Globo é carioca e assim podem não me acusar de clubista por torcer pelo Palmeiras — um time fundado por italianos.

Em todo o mundo, o Brasil naturalmente desperta paixões de torcedores como vemos em Bangladesh e na Indonésia, sem conexão com o Brasil. Afinal, tivemos Pelé, Garrincha, Rivelino, Zico, Romário, Rivaldo, Ronaldo, Ronaldinho, Kaká, Neymar e agora Vini Jr. No caso libanês, no entanto, além do deslumbre com a seleção pentacampeã, pesa a conexão quase familiar das duas nações. O orgulho dos libaneses pelo Brasil e pela diáspora libanesa-brasileira é imenso e vai além do futebol. Se levarmos em consideração o tamanho da torcida, seríamos proporcionais ao Flamengo no Rio. Mas há libaneses que torcem pela França, outros pela Alemanha. A Argentina sempre teve também bastante torcida e cresceu entre as crianças por causa do Messi.

Para contemplar essa paixão, falta apenas algum descendente de libaneses na seleção. Dizem que o Zagallo tinha família de Zahle. Não consegui confirmar. Mas alguns perfis libaneses populares no Instagram já descobriram que Rodrigo Lasmar, médico da seleção, é descendente de libaneses.

Colunista do Globo e comentarista de política internacional da Globonews.

Mestre em Relações Internacionais pela Columbia University de Nova York. É colunista do Globo e comentarista de política internacional da Globonews.

O orgulho dos libaneses pelo Brasil transcende o futebol e está enraizado em uma conexão histórica e cultural única, fruto de uma imigração significativa. Com mais descendentes de libaneses no Brasil do que no próprio Líbano, essa relação se reflete em manifestações de apoio intenso durante eventos esportivos, como a Copa do Mundo. No Líbano, as celebrações pelas vitórias brasileiras são carregadas de um sentimento de parentesco e admiração mútua