Esta é, pelos números e abrangência, a maior Copa do Mundo de todos os tempos. E talvez por isso ela exponha com mais nitidez algo que gostaríamos de já ter superado: a humanidade ainda tropeça numa lição básica, somos uma única espécie. A prova acontece a cada pausa para hidratação. Ali, sob o sol ou sob a pressão, 22 jogadores precisam exatamente do mesmo: água para não desmaiar, ar para respirar, um instante para recompor e a chance de ser feliz jogando. No gramado, a biologia empata o jogo. Fora dele, as arquibancadas do mundo insistem em inventar hierarquias.
O racismo, a xenofobia e o preconceito não tiraram férias para a Copa. Pelo contrário. Marcaram a largada em uma das sedes, nos Estados Unidos, e seguiram em campo mundo afora. Às vezes num comentário ácido de uma pequena parcela da crônica esportiva. Outras, em gritos de torcedores que transformam derrota em sentença racial. O caso mais recente escancarou o roteiro: parte da torcida da Holanda atacou duramente a seleção pela eliminação e pela volta para casa. Crítica a desempenho é parte do jogo. O que não é parte do jogo é quando o alvo são os jogadores negros, e a crítica escorrega para o tom xenofóbico, com insultos que os tratam como “imigrantes” ou “filhos de imigrantes” no momento da perda.
É uma frase velha que volta sempre que convém: “Quando ganham, os negros das seleções europeias são heróis; quando perdem, são imigrantes”. A Itália já viveu isso. A Inglaterra também. A França, de forma recorrente, com um elenco em que cerca de 75% dos jogadores são negros, é o espelho mais exposto desse paradoxo. Aplaudem-se os dribles, os gols e os títulos. Mas, no primeiro tropeço, cobra-se um “passaporte moral” que nunca é exigido dos demais.
A Europa ainda tem uma dívida histórica para quitar. Precisa reconhecer não apenas o que a África entrega ao mundo, ciência, cultura, força de trabalho, criatividade, mas também o que a Europa extraiu do continente africano durante séculos: riquezas, mãos, sangue e vidas. Essa conta não fecha no passado. Ela se estende ao presente, quando descendentes de africanos mantêm serviços essenciais funcionando em vários países, inclusive em Portugal, sustentando cadeias de cuidado que permitem que sistemas inteiros, inclusive o de aposentadorias, continuem de pé. Desumanizar quem sustenta não é só ingratidão. É uma má contabilidade de país.
Parece que foi ontem que saímos de uma pandemia prometendo ser melhores. A Copa, então, vira teste público dessa promessa. Enquanto dentro de campo todos pedem a mesma água e respiram o mesmo ar, fora delas ainda se nega aos outros o direito mais simples: pertencer. Enquanto isso não mudar, nenhum placar será grande o bastante para esconder que o jogo mais importante ainda está sendo jogado e perdido nas arquibancadas do mundo, o da vida e da solidariedade.
Jornalista, escritor e especialista em Diversidade e Inclusão. Preside o Fórum Brasil Diverso e RAÇA Brasil Comunicações
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