A Fifa aprovou uma mudança regulatória considerada histórica para o futebol feminino. A partir deste ano, todas as equipes que disputarem competições organizadas pela entidade deverão cumprir critérios mínimos de representatividade feminina em suas comissões técnicas. Na prática, cada seleção ou clube participante precisará ter, no mínimo, duas mulheres na comissão técnica: uma delas ocupando o cargo de treinadora principal ou auxiliar, e ao menos uma profissional na equipe médica.

As novas exigências foram aprovadas pelo Conselho da Fifa em março deste ano e fazem parte de uma estratégia de longo prazo para ampliar a presença de mulheres em cargos de liderança dentro do futebol. A entidade argumenta que, apesar do crescimento do futebol feminino, os cargos de comando ainda são ocupados majoritariamente por homens.

A estreia da medida acontecerá na Copa do Mundo Feminina Sub-20, disputada na Polônia, em setembro. Na sequência, as regras serão aplicadas na Copa do Mundo Feminina Sub-17, no Marrocos, e na Copa dos Campeões Feminina da Fifa, prevista para janeiro de 2027, nos Estados Unidos. As determinações também estarão em vigor na Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no Brasil entre 24 de junho e 25 de julho.

Em entrevista exclusiva a O TEMPO Sports, a técnica do Atlético, Fabiana Guedes, classificou a iniciativa como um marco para reduzir os impactos históricos da desigualdade enfrentada pela modalidade.

Segundo ela, o desenvolvimento do futebol feminino sempre esteve ligado a medidas institucionais que obrigaram mudanças estruturais. “Eu acho que é por conta do atraso do futebol feminino. A gente ainda vive muitas consequências desse atraso e deixa de fazer várias coisas justamente porque a modalidade ficou muito tempo sem o desenvolvimento que merecia. Essa obrigatoriedade vai ser muito importante para o futebol feminino e para nós, mulheres, conseguirmos ocupar mais espaços. Tudo o que a gente tem vivido no futebol feminino também foi obrigatório”, ponderou a treinadora atleticana. 

Na avaliação da treinadora atleticana, a nova regulamentação segue a mesma lógica de outras decisões que impulsionaram o crescimento da modalidade. No âmbito continental, a Conmebol exige desde 2019 que os clubes classificados para torneios como a Copa Libertadores e a Copa Sul-Americana mantenham equipes femininas (adulta e de base) ou firmem parcerias. Já no cenário nacional, a CBF tornou a categoria adulta obrigatória para a Série A também em 2019, em um cronograma de expansão gradual que prevê a exigência estendida para as Séries B, C e D até 2027.

A mudança integra uma estratégia global da Fifa para aumentar o número de mulheres em funções técnicas e de liderança. Mesmo com o crescimento do futebol feminino nos últimos anos, a presença feminina nos bancos de reservas ainda é pequena. Na Copa do Mundo Feminina de 2023, disputada na Austrália e na Nova Zelândia, apenas 12 das 32 seleções eram comandadas por treinadoras.

Ao anunciar a medida, a diretora de futebol da Fifa, Jill Ellis, afirmou que o esporte ainda precisa criar condições para acelerar essa transformação.“Simplesmente não há mulheres suficientes no ramo do futebol. Precisamos fazer mais para acelerar a mudança, criando caminhos mais claros, ampliando as oportunidades e aumentando a visibilidade delas à beira do campo”, afirmou a dirigente. 

Além das novas exigências, a entidade afirma que continuará investindo na formação de treinadoras. Desde 2021, a Fifa já apoiou 795 mulheres, em 73 associações nacionais, por meio de programas de bolsas de estudo, mentoria e qualificação profissional