O apito final da Copa do Mundo de 2026 não encerrou apenas a disputa pelo título, neste domingo (19/7), conquistado pela agora bicampeã Espanha. Como costuma ocorrer após cada edição, a Fifa também deixa um legado de mudanças que vão influenciar o futebol. Algumas das novidades testadas durante o torneio foram bem recebidas e já começam a ser incorporadas por outras competições. Outras, porém, provocaram críticas de jogadores, treinadores e torcedores.

O principal objetivo das alterações, de acordo com a Fifa, foi tornar as partidas mais dinâmicas, reduzir a perda de tempo com a famosa “cera” e aperfeiçoar a arbitragem. Em linhas gerais, essas iniciativas ganharam força e devem permanecer no futebol internacional. Já medidas como as pausas obrigatórias para hidratação ainda dividem opiniões e levantam questionamentos sobre seus reais objetivos.

A principal herança da Copa será a adoção de regras para reduzir a “cera” e coibir o antijogo. A Conmebol confirmou que Libertadores e Copa Sul-Americana passarão a utilizar as novidades implementadas no Mundial dos Estados Unidos, México e Canadá.

Nos tiros de meta e arremessos laterais, o árbitro fará uma contagem de cinco segundos. Se a bola não for recolocada em jogo dentro do prazo, a posse passará para o adversário. As substituições também mudam. O jogador terá dez segundos para deixar o campo. Caso ultrapasse esse tempo, o atleta que entrará precisará esperar um minuto para ser autorizado, deixando sua equipe temporariamente com um jogador a menos.

Outra novidade envolve atendimentos médicos. Após receber assistência, o jogador lesionado deverá permanecer um minuto fora do gramado antes de retornar, salvo nas exceções previstas pela regra.

A Copa do Mundo também ampliou o alcance e o poder do árbitro de vídeo. Além das revisões tradicionais, o VAR passa a poder corrigir três novas situações: aplicação equivocada do segundo cartão amarelo, erro de identificação do jogador advertido com cartão e marcação claramente incorreta de escanteios.

Nem todas as novidades implementadas pela Fifa na Copa, porém, terão continuidade. A chamada “Lei Vini Jr.”, que prevê expulsão para jogadores que cobrirem a boca ao falar com adversários durante as partidas, ficou fora das competições da Conmebol. A medida é facultativa e a entidade sul-americana optou por não adotá-la.

A “Lei Vini Jr.” surgiu após episódios recentes de injúria racial e outras ofensas ditas sem possibilidade de leitura labial. O caso que impulsionou o debate ocorreu na Liga dos Campeões, em fevereiro deste ano, quando o argentino Gianluca Prestianni, do Benfica, cobriu a boca ao conversar com Vinícius Júnior. O atacante do Real Madrid disse ter sido alvo de ofensas racistas.

Essa foi uma uma mudança que provocou resistência durante a Copa do Mundo. Pela primeira vez, todas as partidas tiveram duas interrupções de cerca de três minutos, independentemente das condições climáticas. A Fifa justificou a medida como uma forma de proteger os atletas, mas jogadores e treinadores enxergaram outro motivo: a criação de novos espaços comerciais nas transmissões.

“Provavelmente está rendendo algum dinheiro a mais para a Fifa. A pausa para hidratação virou um intervalo comercial”, criticou o lateral-direito canadense Alistair Johnston. O ex-técnico do Uruguai, Marcelo Bielsa, os comandantes da Argentina e da Inglaterra, Lionel Scaloni e Thomas Tuchel, e o zagueiro da seleção da Holanda, Virgil van Dijk, também se manifestaram publicamente contrários à medida.

Em alguns estádios do Mundial, a pausa para hidratação chegou a ser vaiada pelos torcedores. Na contramão dos críticos, há quem defenda a pausa, como os ex-jogadores Cafu, Roberto Carlos e Bebeto. 

Apesar da repercussão negativa, a Conmebol decidiu manter a regra, com duas paralisações, uma em cada tempo, por partida na Copa Libertadores e na Sul-Americana, algo que já vinha acontecendo nos jogos do primeiro semestre.

A Uefa, por outro lado, já anunciou que não adotará o modelo na Eurocopa de 2028. No Brasil, a CBF segue um caminho intermediário. As pausas continuam facultativas e dependem das condições climáticas, podendo ser autorizadas quando a temperatura superar 28°C.

No que diz respeito às novas regras, esta edição da Copa do Mundo, a 23ª da história, deixa um legado de contrastes. Enquanto as medidas para acelerar o jogo e melhorar a eficiência da arbitragem devem se consolidar, outras experiências mostraram que nem toda inovação encontra aceno positivo dentro e fora das quatro linhas