O Paraguai na boca do povo. Nas redes sociais, muitos declararam guerra ao país vizinho. Enfurecidos, torcedores dizem que o Paraguai é uma vergonha para o futebol. A retranca e o anti-jogo cruzaram uma linha moral inaceitável contra a França. Vaias. Humilhações. Quilômetros de postagens indignadas.
É sempre triste ver como a capacidade de se indignar entra no futebol. Jogador fez falta feia em Mbappé: Buuuuuuu. Cabo Verde protege atleta acusado de estupro: comentários raros e sem nenhum tom de raiva.
Dizem que o futebol é maior do que a vida, mas essa frase acaba no momento em que colocamos para jogo a violência contra mulheres, contra pessoas negras, contra a comunidade LGBT+. Nessa hora, os que ficam furiosos com a retranca agressiva paraguaia olham para o outro lado e esperam mudar de assunto. Ou, tão grave quanto, dizem: ah, vamos falar de futebol. Como se o futebol, por ser maior do que a vida, pudesse desprezar metade de sua torcida.
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A retranca paraguaia, vista em muitos times há anos, fez alguns homens perderem as estribeiras e se descontrolarem, mas sobre Hakimi, que será julgado por estupro ao final da competição, eles só têm só elogios. "Ah, mas precisamos esperar a condenação", argumentam. Não, não precisamos. Não somos a justiça, somos jornalistas. Aqui nosso trabalho é oferecer o contexto, e o contexto diz que vivemos uma epidemia de crimes contra mulheres e não uma epidemia de falsas acusações.
O contexto diz que as chamadas falsas acusações são da ordem de 3%, que sequer são feitas por mulheres, que nunca houve uma mulher que se deu bem acusando um homem poderoso de crime contra sua dignidade, que o sistema de justiça está organizado para pegar um caminhão de provas e dizer "o conjunto probatório não é suficiente". Nessa hora o machismo berra bovinamente: inocentado! O que não é verdade.
Quando falamos de crimes sexuais com provas escandalosas, o correto é o afastamento imediato. FIFA e federações precisam impedir a convocação de jogadores acusados de crimes contra mulheres. A justiça que faça seu trabalho de forma decente e anti-patriarcal enquanto o futebol diz "aqui não".
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