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Viu a liderança passar para João Havelange, mas, nesse mesmo dia, foi eleito presidente honorário da FIFA. Stanley Rous começou como árbitro, passou pela Primeira Guerra Mundial, e acabou como Sir.

▲Stanley Rous foi um dos maiores responsáveis pela clarificação e aprimoramento das Leis do Jogo

É uma das “12 pessoas que arruinaram o futebol”, pela forma como a FIFA “caiu nas mãos de Havelange, Blatter e Warner”, lê-se num artigo do Politico de 2015. Stanley Rous nasceu a 25 de abril de 1895, em Mutford, uma aldeia próxima de Lowestoft, em Suffolk. Era o filho mais velho de um comerciante de mercearias e fez a sua formação inicial como professor, antes de servir na Primeira Guerra Mundial como suboficial da Artilharia Real em França, Palestina, Egito e Líbano. Foi durante esse período, ao arbitrar jogos do exército no Egito, que manteve a ligação ao futebol. Depois da guerra, tornou-se professor de desporto na Escola Secundária de Watford – curiosamente, uma escola onde se jogava râguebi, não futebol.

1934 FA Cup Final referee, Stanley Rous. (Photo: Hulton Archive) pic.twitter.com/mQqNaYM5ic

— A Football Archive* (@FootballArchive) January 28, 2018

A carreira na arbitragem cresceu rapidamente. Em 1926, foi juiz de linha na final da FA Cup em Wembley. Em 1934, já estava no centro do relvado nessa mesma final, entre o Manchester City e o Portsmouth – e no dia seguinte viajou para a Bélgica para apitar um jogo internacional, antes de anunciar a sua retirada da arbitragem. Ao longo da carreira arbitrou 36 jogos internacionais. Mas foi fora do relvado que a sua maior influência se faria sentir.

Em 1934, Rous foi nomeado secretário da Football Association (a Federação Inglesa de Futebol), cargo que desempenhou durante quase três décadas. Foi nessa posição que reescreveu as Leis do Jogo, em 1938 – uma contribuição que a FIFA reconhece como uma das mais importantes da história do desporto. Introduziu também o sistema diagonal de controlo para árbitros, que revolucionou a forma de posicionamento no relvado e ainda hoje é praticado. Em 1943, foi nomeado Comandante da Ordem do Império Britânico. Em 1949, foi destacado com o título de cavaleiro pelos seus serviços aos Jogos Olímpicos de Londres de 1948.

Depois da guerra, foi responsável por trazer as quatro federações britânicas de volta à FIFA em 1947, após uma ausência de 19 anos. Em 1958, juntou-se ao Comité Executivo da UEFA, onde seria vice-presidente antes de se candidatar à presidência da FIFA. Em setembro de 1961, tornou-se o sexto presidente da organização – o terceiro inglês a ocupar o cargo.

Our new North Stand was opened by chairman of the FA, Sir Stanley Rous before our home game v Bolton on 2️⃣3️⃣ August 1961

It was the first cantilever stand in the country to run the entire length of the pitch #swfc pic.twitter.com/7nql7DEeSq

Durante os 13 anos em que liderou a FIFA, o Campeonato do Mundo tornou-se um espetáculo televisivo mundial – com o México-1970 a ser o primeiro Mundial transmitido a cores. Em 1966, presenciou a vitória de Inglaterra no torneio que organizou em casa. Recuperando uma manchete do Daily Mirror publicada na véspera do congresso da FIFA em Frankfurt, a FourFourTwo recorda que Rous era então tratado como “senhor futebol mundial” no dia anterior ao congresso decisivo da FIFA em Frankfurt. No seu mandato, a FIFA expandiu-se o suficiente para as seleções africanas e asiáticas começarem a ter mais presença nos torneios e foi introduzido o primeiro campeonato mundial de jovens.

Mas o legado de Rous é também marcado por uma sombra que acabou por ditar o fim da sua presidência. A sua posição em relação ao apartheid na África do Sul – onde o futebol era praticado em separação racial – tornou-se a principal vulnerabilidade da sua candidatura à reeleição em 1974: defendia que a África do Sul deveria permanecer (ou ser readmitida) na FIFA, apesar de manter uma estrutura desportiva baseada na segregação racial, e opunha-se à exclusão por motivos políticos.

Segundo um estudo académico de Paul Darby publicado na revista Soccer & Society em 2008, Rous viajou até à África do Sul em 1963 para “investigar” a situação do futebol no país e concluiu que o desporto poderia desaparecer se a Federação Sul-Africana não fosse readmitida na FIFA. A readmissão aconteceu, mas a posição de Rous gerou uma oposição crescente entre as federações africanas e asiáticas. A Confederação Africana de Futebol (CAF) abandonou um Mundial em protesto. Os países africanos, que tinham passado de quatro membros na FIFA em 1956 para 37 no início dos anos 70, começaram a organizar-se politicamente, segundo o mesmo artigo.

FIFA President Sir Stanley Rous congratulating West Germany captain Franz Beckenbauer as the winning side lift the trophy.

Rous was soon to be replaced by João Havelange. pic.twitter.com/98OXGuL5qL

— Retro Football Network (@retrofootballnw) April 29, 2026

Do outro lado, o brasileiro João Havelange construiu uma campanha que prometia mais lugares no Mundial para as seleções africanas e a exclusão permanente da África do Sul. De acordo com a FourFourTwo, entre 1971 e 1974, Havelange visitou 80 países, muitas vezes acompanhado por Pelé e pela seleção brasileira. Rous, convicto de que o seu historial seria suficiente para garantir a reeleição, subestimou a campanha do adversário. Na manhã de 11 de junho de 1974, em Frankfurt, Rous acreditava ainda ter condições de vencer – “Sir Stanley Rous estava a conquistar novos apoios aqui ontem à noite”, escreveu John Jackson no Daily Mirror no dia anterior. Não foi suficiente. Havelange venceu as eleições e Rous foi nomeado presidente honorário da FIFA no mesmo dia em que deixou o cargo. O artigo do Politico de 2015 refere que Rous “não subornou eleitores” e, por isso, “perdeu para quem subornou”.

Rous publicou em 1974 “A História das Leis do Jogo da Football Association” e, em 1978, as suas memórias, “Mundos do Futebol: Uma vida no Desporto”, pela editora Faber and Faber. Morreu a 18 de julho de 1986, em Londres, de leucemia, aos 91 anos. Uma cerimónia em sua memória foi realizada na Abadia de Westminster. O seu nome ficou associado à Rous Cup, uma competição de curta duração entre Inglaterra e Escócia, e à Bancada Rous no estádio Vicarage Road do Watford FC – embora esta última tenha sido renomeada em 2014 em homenagem ao treinador Graham Taylor