Em poucos meses, sem muita dificuldade, o presidente dos EUA, Donald Trump, arruinou a ordem mundial que os americanos e seus aliados ocidentais levaram décadas para construir após a 2.ª Guerra. Logo, não seria difícil para Trump arruinar também o arcabouço institucional que dava ao futebol a sensação de que, pelo menos em campo, as regras valem para todos. Bastou um telefonema.

Trump, como se sabe, ligou para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, para reclamar da suspensão, por cartão vermelho, de um dos principais atletas da seleção dos EUA na Copa do Mundo. Para ele, não era justo que o melhor jogador do seu time fosse excluído – e sobrou até para o árbitro do jogo, o brasileiro Raphael Claus, qualificado de “suspeito” por Trump a partir de um dossiê produzido pela Casa Branca com informações distorcidas e teorias da conspiração.

O próprio presidente americano relatou sua iniciativa a jornalistas, sem qualquer constrangimento – palavra que, afinal, não existe no léxico trumpista. Para Trump, o tal atleta havia sido expulso injustamente e deveria ser autorizado a jogar a partida seguinte, anulando-se a suspensão automática imposta pelas regras da Fifa.

Trump alega que não mandou a Fifa fazer nada, apenas reclamou, e que a decisão de reabilitar o jogador a despeito das regras foi da entidade, corrigindo o que, em sua opinião, era um erro flagrante. E ele tem razão: a responsabilidade por permitir que o jogador atuasse mesmo contra as regras cabe inteiramente à Fifa. Com a mesma dose de cinismo, Infantino alegou que a anulação da punição ao tal jogador foi uma decisão “técnica” tomada por organismos da Fifa sobre os quais ele não tem controle. Ora, se assim fosse, a punição teria que ter sido necessariamente mantida, porque a regra é clara: jogador expulso tem de cumprir pelo menos um jogo de suspensão, mesmo que a expulsão tenha sido injusta.

Pode-se argumentar que seria muito difícil para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, recusar-se a levar em consideração uma reclamação de Donald Trump, que não só é o presidente do país mais poderoso do mundo, como já deixou clara sua vocação de chefe mafioso – para quem a lealdade e a submissão contam mais do que leis e regulamentos. Portanto, era preciso realmente uma certa dose de coragem para enfrentar Trump e fazer valer o que está escrito nas regras.

Ocorre que a Fifa nunca foi um exemplo nem de coragem nem de lisura. Pelo contrário: jactando-se de ter mais filiados do que o total de países-membros da ONU, a Fifa sempre se pautou pela flexibilidade moral. A escolha das sedes, por exemplo, costuma ter como critério não apenas aspectos técnicos, mas também o peso político e econômico das candidatas e o quanto esses fatores interessam para os projetos de poder da Fifa.

Está longe de ser casual que países árabes sem a menor tradição no futebol, mas com amplo poderio financeiro, como Catar e Arábia Saudita, tenham sido escolhidos recentemente para receber a Copa. Abundam denúncias de corrupção nesses e em outros casos, mas, como o futebol costuma ser tratado como um universo paralelo, no qual certas leis do mundo real não se aplicam, fica tudo por isso mesmo. O que vale é a satisfação da paixão popular.

Assim, não é estranho que Gianni Infantino tenha cedido à pressão de Trump, mesmo que a Fifa tenha leis muito claras contra interferência política no futebol. Pelo contrário, estranho seria se o presidente da Fifa traísse a natureza da entidade e delicadamente lembrasse ao presidente dos EUA que as regras foram feitas para todos e que ele não poderia fazer nada no caso do jogador americano suspenso.

A despeito de tudo isso, não se pode tratar esse episódio com naturalidade. Mesmo considerando-se que a Fifa é o que é, o futebol em si mesmo ainda preservava um território ético intocado, no qual todos os envolvidos – jogadores, torcedores, técnicos – acreditavam que o jogo era disputado em condições de igualdade tais que, mesmo diante de um eventual abismo técnico entre os times, qualquer um poderia vencer. Agora, depois da bem-sucedida intervenção de Trump na Copa do Mundo, esse território foi conspurcado, e talvez o mundo do futebol nunca mais volte a ser o mesmo