A evolução do futebol é frequentemente narrada por meio das Copas do Mundo, dos grandes jogadores ou das conquistas nacionais

Embora não compartilhe integralmente das ideias de Thomas Kuhn (1922–1996), filósofo, físico e historiador norte-americano, é inegável que suas contribuições para a compreensão do progresso científico, especialmente por meio de sua obra de 1962, “A Estrutura das Revoluções Científicas”, são significativas. A referida obra também nos oferece uma alegoria que pode auxiliar na explicação do futebol contemporâneo. Kuhn argumenta que a evolução histórica da ciência evidencia que o conhecimento não progride de forma linear. Durante longos períodos, um determinado modelo de compreensão do mundo orienta a produção científica. Até que as contradições se acumulem, as respostas se tornem insuficientes para explicar a realidade, e um novo paradigma emerge. Essa ruptura não elimina completamente o passado, mas sim reorganiza todas as relações em torno de uma nova lógica. Aplicando as teses de Kuhn, talvez possamos encontrar uma abordagem mais eficaz para compreender a história recente do futebol.

No ano de 1970, no México, o planeta testemunhou, pela primeira vez em larga escala, uma Copa do Mundo transmitida ao vivo e em cores. Este evento não representou apenas um avanço tecnológico, mas sim uma transformação na linguagem do futebol. O ano de 1970, portanto, marca um ponto de inflexão para o esporte mais popular do mundo.

A televisão deixou de ser uma mera janela para o estádio, passando a organizar o espetáculo. Os horários das partidas, a seleção dos enquadramentos, a narrativa esportiva e até mesmo a valorização dos grandes jogadores passaram a se alinhar às exigências da imagem televisiva. O futebol transformava-se, de forma definitiva, em um produto global, representando uma significativa mudança do paradigma do nacionalismo que caracterizou a primeira metade do século XX.

Poucos anos após esse marco, em 1974, outra ruptura de paradigma ocorreu, desta vez, dentro das quatro linhas.

A seleção holandesa, sob a liderança de Rinus Michels e Johan Cruyff, apresentou ao mundo o denominado “Futebol Total”. Mais do que um sistema tático, tratava-se de uma nova concepção do jogo. As posições tornavam-se móveis, os espaços ganhavam protagonismo e a inteligência coletiva passava a ter a mesma importância que o talento individual.

Tratava-se de uma revolução comparável às mudanças de paradigma descritas por Thomas Kuhn. O futebol deixava de ser organizado pela rigidez das posições para ser explicado pela dinâmica permanente dos movimentos.

Nas décadas seguintes, outra transformação deslocaria novamente o centro de gravidade do esporte. O crescimento do mercado de direitos de transmissão, consolidado nos anos 1990 com a criação da Premier League e a entrada definitiva das grandes corporações de mídia na disputa pelos campeonatos, fez do futebol um dos produtos mais valiosos da indústria global do entretenimento.

Portanto, já não bastava disputar títulos. Era preciso disputar audiência. As emissoras passaram a competir pelos campeonatos, enquanto os campeonatos passaram a ser organizados para atender às necessidades das emissoras. A lógica econômica começava a redesenhar calendários, horários e formatos das competições.

A Copa da França, em 1998, talvez simbolize outro ponto de inflexão, ou, seguindo a tese de Kuhn, mais uma mudança de paradigma.

Naquele momento, as grandes fabricantes de material esportivo deixaram de ser apenas fornecedoras de uniformes. Nike e Adidas passaram a disputar o protagonismo do espetáculo. Os jogadores tornaram-se marcas globais, e poucos representaram tão bem essa transformação quanto Ronaldo Fenômeno. O camisa 9 da Seleção já não era apenas um centroavante extraordinário. Era um ativo publicitário de alcance planetário. O futebol descobria que seu maior patrimônio poderia ser a construção de marcas.

O século XXI acelerou mudanças que talvez nem Kuhn pudesse prever. O jogo continua sendo disputado em noventa minutos, mas o negócio do futebol já não se limita ao que acontece dentro das quatro linhas.

Hoje, clubes são adquiridos por fundos internacionais de investimento. Casas de apostas patrocinam campeonatos inteiros, causando problemas sociais e conflitos com legislações locais sobre jogos e apostas, como no caso do Brasil.Plataformas digitais competem com a televisão aberta. Redes sociais produzem audiência em tempo real. Algoritmos definem estratégias de comunicação. Inteligência artificial participa da análise tática, da prospecção de atletas e da gestão do desempenho esportivo.O futebol passou a produzir dados na mesma velocidade em que produz emoções. Ao mesmo tempo, a geopolítica invade o espetáculo.

A Copa de 2026 talvez seja o maior símbolo dessa nova realidade com mais uma mudança de paradigma. Pela primeira vez, um Mundial será disputado em meio ao endurecimento das políticas migratórias de um de seus principais países-sede, os EUA. Como observou o professor Marco Antonio Bettine de Almeida, da USP, a imagem que sintetiza essa edição talvez seja justamente a convivência entre uma Copa aberta e fronteiras fechadas. O paradoxo é evidente. Anteriormente, a FIFA chegou a ser acusada de criar um estado de exceção por interferir em leis do país sede, como foi o caso de 2014, na Copa do Brasil. Ou a da Rússia, em 2018 ou no Catar, em 2022, com protestos contra a censura e a perseguição a homossexuais.

Enquanto torcedores, atletas, patrocinadores e capitais atravessam continentes para movimentar um mercado bilionário, milhões de pessoas continuam encontrando barreiras para exercer um direito muito mais elementar: o de circular livremente.Talvez este seja o verdadeiro paradigma do futebol contemporâneo. O centro do espetáculo já não é apenas o jogo.É a circulação global de imagens, capitais, marcas, dados, plataformas e narrativas.

Se a televisão foi a grande responsável pela revolução iniciada em 1970, os algoritmos talvez sejam os protagonistas da revolução que testemunhamos agora.

Thomas Kuhn dizia que uma revolução científica acontece quando um paradigma deixa de explicar satisfatoriamente a realidade e outro assume seu lugar. O futebol parece viver exatamente esse momento.

A Copa de 2026 poderá ser lembrada não apenas pelo campeão que levantará a taça, mas como o instante em que ficou evidente que o paradigma televisivo do século XX deu lugar ao futebol-plataforma do século XXI.

O jogo continua sendo o mesmo. Mas o mundo que organiza esse jogo já mudou profundamente.

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