Os membros do Teenage Fanclub já não são mais teenagers faz um bom tempo. O mais jovem da formação atual, o tecladista Euros Childs, tem 51 anos — e o líde Norman Blake já pode ser considerado um idoso, tendo completado seis décadas de vida em outubro de 2025. Mas o som dos caras não envelheceu nada desde a formação da banda, lá em 1989.

Na verdade o trabalho mais recente da banda escocesa, Nothing Lasts Forever, de 2023, mostra que eles nunca abandonaram seu estilo: um rock alternativo maduro (há quem chame de dad rock — oh, a ofensa!), caracterizado pelo contraste entre uma parede de guitarras distorcidas e a delicadeza das melodias, com camadas acústicas, uma cozinha aconchegante e harmonias vocais que trazem mais que uma pitada da cena folk rock americana da década de 1970 (Blake pode até ser o líder nominal, mas ao longo da carreira do grupo, todos os membros dividiram composição e vocais).

Calma, você ainda está no FlatOut e ele ainda é um site sobre carros. Mas há um motivo muito bom para começar esse texto meio que apresentando o Teenage Fanclub para quem não conhece — e ele atende pelo nome de Grand Prix.

Lançado em maio de 1995, Grand Prix é considerado por muitos o auge criativo do Teenage Fanclub — talvez dividindo o posto com Bandwagonesque, de 1991. Mas, para os fãs de automobilismo, o impacto começa antes mesmo de colocar o CD no player (ou a agulha no vinil, se você for desses). A capa traz um plano fechado, quase abstrato, do bico de um carro de Fórmula 1, enquanto o verso mostra uma visão lateral da traseira, com a roda em destaque. E você pode até pensar que é um mockup genérico ou algo que se assemelhe, mas não: trata-se do Simtek S951, o modelo usado pela equipe britânica na fatídica temporada de 1995.

E aqui mora uma das maiores ironias da história do automobilismo e da música: é muito provável que o maior sucesso da Simtek não tenha acontecido nas pistas, mas sim nas prateleiras das lojas de discos do mundo inteiro.

Para quem viveu a década de 90, era impossível ignorar a Simtek. Não pelo desempenho — que, convenhamos, era sofrível —, mas pelo visual. Em uma era na qual o grid da F1 ainda era dominado pelo conservadorismo cromático das marcas de cigarro, a Simtek resolveu abraçar a cultura pop com força total: o carro era pintado em um tom de roxo profundo, quase magnético, misturado com detalhes em azul-esverdeado e preto. Era a paleta de cores definitiva daquela década. E, para coroar o visual MTV Generation, a própria MTV era a patrocinadora master da equipe, estampando seu logo bem na lateral e no bico do carro.

O S951 parecia um brinquedo em escala real, um carrinho saído diretamente de um jogo de arcade como Virtua Racing ou de um clipe do Weezer ou do Blur na programação da própria MTV. Era o carro mais descolado do grid… mas pena que a estética não se traduzia em confiabilidade mecânica. Longe, longe disso.

O negócio com a Simtek, porém, é que não dá para falar dela sem que a conversa logo assuma um tom mais grave, trágico até — porque a história da Simtek é pesada. Fundada pelo engenheiro Nick Wirth, a equipe estreou em 1994 e ficou tristemente marcada pelo acidente fatal de Roland Ratzenberger em Imola. Em 1995, tentando se reerguer com o promissor Jos Verstappen (sim, o pai do Max) e Domenico Schiattarella, a escuderia até mostrou alguns lampejos de velocidade com o belo carro roxo. O Verstappen pai chegou a andar em sexto lugar no GP da Argentina antes de o câmbio quebrar.

Mas a falta de dinheiro bateu à porta de forma inevitável. Após apenas cinco etapas na temporada de 1995, justamente após o GP de Mônaco, a Simtek fechou as portas e declarou falência.

O Teenage Fanclub, que estava finalizando o álbum exatamente naquele período de colapso da equipe, capturou o canto do cisne da Simtek. Na capa do álbum, aquele carro de Fórmula 1 representava mais que uma homenagem ao esporte a motor — era praticamente o retrato de um momento congelado no tempo. É a velocidade, a juventude, o a estética e a efemeridade dos anos 90 traduzidas em uma foto.

Apesar de sua trajetória mambembe, a Simtek não surgiu do nada no fundo de um quintal. Ela surgiu do nada em um escritório na casa de um engenheiro.

Simtek significa Simulation Tekhnology — uma consultoria de engenharia de ponta fundada em 1989 por Nich Wirth, um jovem prodígio da aerodinâmica, e ninguém menos que Max Mosley, que mais tarde se tornaria presidente da FIA. Wirth era um dos pioneiros no uso de dinâmica de fluidos computacional (CFD) enquanto a maior parte das equipes ainda dependia exclusivamente dos enormes e caríssimos túneis de vento para testar a aerodinâmica dos carros.

O fato de usar computadores para realizar simulações aerodinâmicas permitiu que a Simtek começasse, literalmente, em um puxadinho na casa do próprio Wirth, onde trabalhava o único funcionário da empresa, o engenheiro Darren Davis. Mas não demorou para que o negócio prosperasse e a Simtek conseguisse uma sede própria no distrito industrial de Banbury, no condado de Oxfordshire — e eles descolaram até um túnel de vento para ajudar a validar as simulações.

Já em 1990 a Simtek foi contratada secretamente pela BMW para projetar um carro de Fórmula 1 para uma possível estreia da marca bávara. O projeto, batizado S192, foi engavetado quando a BMW desistiu para entrar no Campeonato Alemão de Carros de Turismo (o DTM), mas o chassi acabou sendo vendido e usado pela desastrosa equipe Andrea Moda em 1992. No mesmo ano, logo que foi nomeado presidente da FIA, Mosley vendeu sua parte da Simtek para Wirth.

No início de 1993, a Simtek foi encarregada de desenhar o chassi para uma nova equipe espanhola chamada Bravo F1. O projeto, porém, ruiu antes mesmo de nascer devido à morte repentina de Jean-François Mosnier, o empresário e principal investidor por trás da operação.

Cansado de ver seus projetos morrerem na praia, Nick Wirth tomou uma decisão ousada em agosto de 1993: a Simtek entraria na Fórmula 1 na temporada de 1994 com uma equipe própria. Para dar peso e credibilidade ao negócio, o tricampeão mundial Sir Jack Brabham tornou-se acionista da Simtek Grand Prix, e seu filho, David Brabham, foi anunciado como o primeiro piloto do time antes do fim daquele ano. Já para cuidar da operação nos boxes foi convocado Charlie Moody, ex-gerente da Leyton House.

A busca pela segunda vaga da Simtek para 1994 ilustra bem o eterno malabarismo financeiro da rabeira do grid. A equipe precisava de talento, mas precisava ainda mais de dinheiro de patrocínio.

O experiente Andrea de Cesaris e o jovem e promissor brasileiro Gil de Ferran (que vinha brilhando na Fórmula 3000) chegaram a negociar fortemente o assento, mas as conversas não avançaram. Jean-Marc Gounon também foi considerado, mas seus compromissos contratuais no início do ano impediram o acordo. Assim, a vaga caiu no colo de um estreante de 33 anos que havia conseguido levantar uma verba de patrocínio para as primeiras corridas: o austríaco Roland Ratzenberger.

A temporada de estreia com o modelo S194, empurrado pelo V8 HB da Cosworth, seria marcada pela maior das tragédias. No fatídico GP de San Marino, em Imola — o mesmo fim de semana que tiraria a vida de Ayrton Senna —, o mundo do automobilismo assistiu ao terrível acidente de Ratzenberger no sábado de classificação. A asa dianteira do Simtek se soltou a mais de 300 km/h na curva Villeneuve, deixando o austríaco sem controle. Roland não resistiu aos ferimentos.

Destroçada emocional e financeiramente, a equipe mostrou uma resiliência absurda para continuar no campeonato. Andrea Montermini assumiu a vaga, mas sofreu outro acidente grave logo na etapa seguinte, na Espanha. No fim, Jean-Marc Gounon finalmente assumiu o cockpit pelo resto da temporada. A Simtek terminou o ano em frangalhos, mas viva