Embora pertençam a universos diferentes, moda e automobilismo compartilham mais do que aparentam. Nos últimos anos, elementos tradicionalmente associados às pistas, às oficinas e às equipes de corrida passaram a ocupar espaço nas ruas e nas passarelas, em um movimento que aproxima o universo automotivo do streetwear (moda urbana).

A tendência está atrelada ao momento em que a estética dos anos 1990 e do início dos anos 2000, período marcado pela forte presença da cultura esportiva na moda, ganha força no mundo fashion. O movimento também acompanha a expansão do interesse pelo automobilismo entre os jovens e mulheres, especialmente em torno da Fórmula 1 e, no Brasil, da Stock Car, que acontece neste fim de semana em Curvelo (MG).

Para Gabriela Ordones Penna, professora do curso de Design de Moda da Una, a aproximação não acontece por acaso. Os dois universos têm em comum a busca por excelência, inovação e performance, além da construção de uma imagem de prestígio e desejo.

“Existe uma combinação muito poderosa entre esses universos, que é o luxo, a exclusividade, a tecnologia, a velocidade e um universo de excelência no fazer. Se a gente olhar o automobilismo, por exemplo, as marcas têm um símbolo de prestígio, os carros de ponta, os pilotos altamente treinados. E essa associação é estratégica. Se a gente leva isso para a moda, a Louis Vuitton quando se associa à Fórmula 1, por exemplo, se reafirma como uma marca também de excelência, só que no universo do vestir e dos acessórios de alto luxo”, explica a especialista.

Essas parcerias levam para o universo fashion a ideia de excelência presente no automobilismo. Ao mesmo tempo, o esporte encontra nas roupas e acessórios uma forma de se aproximar de um público que talvez não tivesse uma ligação tradicional com as corridas.

“A moda pode ser uma porta de entrada cultural, inclusive para uma ampliação do público, já cativo e tradicional do automobilismo. Inclusive, muitas mulheres vêm se destacando profissionalmente no esporte, assim como consumidoras que originalmente não tinham relação nenhuma com o automobilismo, começam a se interessar por esse universo, numa dimensão mais ligada ao lifestyle”, afirma Gabriela.

Os próprios pilotos também são responsáveis pela relação entre os dois mundos. O inglês Lewis Hamilton, da Fórmula 1, por exemplo, já se tornou um ícone da moda com produções que servem de inspiração para homens e mulheres. Não à toa, as aparições do atleta no Met Gala (evento beneficente anual realizado em Nova York para arrecadar fundos para o Costume Institute do Metropolitan Museum of Art) são sempre aguardadas e muito comentadas.

Piloto da F1, Lewis Hamilton virou referência na moda- Foto: Instagram

A influência não se limita às grandes marcas. Elementos com inspirações nas pistas são encontrados em coleções e peças do cotidiano. A chamada jaqueta racing, por exemplo, deixa de ser exclusivamente uma peça ligada às equipes e ganha versões voltadas ao streetwear.

O mesmo acontece com macacões, botas tratoradas, luvas, zíperes mais aparentes, patches e logotipos. Até mesmo as cores utilizadas por equipes podem ser incorporadas às roupas, criando uma identificação visual com o automobilismo sem necessariamente reproduzir um uniforme de corrida.

“Às vezes essa referência pode ser sutil, ou ela pode aparecer de uma maneira mais funcional, de materiais mais tecnológicos, recortes, ideia de velocidade”, explica Gabriela.

Macacões e Jaquetas Racing ajudam a compor looks inpirados no movimento 'motorcore'- Fotos: Pinterest

Esse encontro entre automobilismo e moda também começa a ganhar força em iniciativas brasileiras. Um exemplo é a colaboração entre a marca de streetwear Approve e a Texaco, que lançaram recentemente uma collab com inspirações que unem os dois mundos.

De acordo com Guilherme Velloso, sócio e diretor criativo da Approve, a parceria nasceu a partir de um convite da Texaco e envolveu uma pesquisa sobre diferentes momentos da história da marca.

“O processo de desenvolvimento, de busca por inspirações para a colaboração, partiu de um mergulho muito profundo em todas as referências desses mais de 100 anos de história da Texaco”, conta.

A equipe pesquisou campanhas antigas, a identidade visual dos postos, logotipos utilizados ao longo das décadas e materiais publicitários dos anos 1960, 1970, 1980 e 1990. O resultado foi uma coleção que combina referências históricas com uma leitura contemporânea.

Para Carolina Marques, gerente de comunicação e marcas da Texaco, a proposta foi justamente criar uma ponte entre diferentes universos.

“O automobilismo vive um momento de ampliação de audiência e hoje atrai públicos cada vez mais diversos, incluindo um número crescente de mulheres apaixonadas por corridas, carros e cultura automotiva. A moda tem um papel importante nesse processo porque amplia as formas de conexão com esse universo”, afirma.

As peças da coleção incorporam elementos presentes nas pistas, oficinas e garagens, como uniformes de equipes, jaquetas racing, patches, números e grafismos de corrida, mas sem deixar de lado uma estética voltada para o consumidor atual.

“Além da estética, também buscamos capturar a atitude do automobilismo: performance, movimento, competição e paixão por carros”, afirma Carolina. (Com colaboração de Ana Maria Rocha)